Taxa de depressão pós-parto é maior em hospital público, diz estudo

Por Giovanna Balogh

Mulheres atendidas em hospitais públicos de São Paulo sofrem mais de depressão pós-parto do que as que deram à luz em unidades particulares. A conclusão foi feita após um estudo realizado por professoras do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo) e do Instituto de Saúde de São Paulo.

O levantamento comparou essas mulheres com outras gestantes de classe média alta e alta que tiveram o parto realizado em um hospital particular da capital paulista. Segundo o estudo, 28% das atendidas no Hospital Universitário da USP, na zona oeste de São Paulo, apresentaram depressão pós-parto. O número é cerca de duas vezes maior que a média mundial descrita na literatura científica, que varia entre 10% e 15%. Na rede particular, apenas 8% tiveram sinais de depressão.

Análises feitas durante o estudo mostram que os principais fatores de risco para o desenvolvimento da depressão pós-parto são: ocorrência de depressão anterior (depressão antes da gestação), relação ruim com o parceiro e falta de apoio familiar.

Tania Lucci, uma das pesquisadoras da USP, diz que a depressão puerperal acontece principalmente em quem não tem  auxílio de outras pessoas como, por exemplo, alguém para dividir os cuidados com o bebê ou ficar com as tarefas domésticas. “O estudo mostrou que na rede particular, as mulheres têm mais escolaridade e consequentemente mais recursos e apoio social,” diz.

As pesquisadoras recrutaram inicialmente 400 gestantes atendidas em uma UBS (Unidade Básica de Saúde) do bairro do Butantã, na zona oeste, e cujo parto estava previsto para acontecer entre setembro e dezembro de 2006 no Hospital Universitário. Destas, apenas 257 deram à luz na unidade e foram incluídas no estudo.  Já na rede privada, foram entrevistadas 268 mulheres.

As mães da rede pública foram acompanhadas até a criança completar três anos. Nos primeiros meses de vida do bebê, elas responderam a um questionário chamado de Escala de Depressão Pós-Parto de Edinburgh. O  levantamento não tem valor como diagnótico, mas oferece uma aproximação indicativa de sinais de depressão. No questionário, entre as perguntas estão se a mulher se sente feliz e se sente ‘esmagada pelas tarefas e acontecimento do dia-a-dia’, entre outras perguntas.

As mulheres atendidas pela rede particular foram entrevistadas durante a internação no hospital e depois entre dois e quatro meses após o parto, onde também responderam ao mesmo questionário.

Além da grande diferença de depressão pós-parto na rede pública e privada, o estudo mostrou que a idade da mãe, a escolaridade, o número de visitas pré-natal e de cesarianas foram maiores entre as mulheres que tiveram seus bebês na unidade particular.

Além de se considerarem ‘piores mães’, as mulheres com depressão disseram que o ‘bebê dava muito trabalho’, que tinham dificuldades no cuidado com a criança e ainda que eram impacientes e dedicavam menos tempo ao filho.

 

Apoio do parceiro e da família ajudam a reduzir os casos de depressão (Foto: Schutterstock)

 

DESENVOLVIMENTO DO BEBÊ

O impacto da depressão puerperal na relação mãe-bebê e o desenvolvimento da criança foi avaliado com mais detalhes no estudo com as pacientes do hospital público.

Ao avalir as mães e os bebês quatro meses após o parto, foi notado que os bebês procuravam menos o olhar da mãe que tinha sinais de depressão, mas não foi notada diferença em outros comportamentos do bebê nesta faixa etária.

Já aos 12 meses, os filhos de mãe com depressão apresentaram desempenho pior em algumas tarefas indicativas de desenvolvimento motor, mas melhor desenvolvimento oral. Para as estudiosas, isso ocorre porque a criança tem mais necessidade de se comunicar para chamar a atenção de outras pessoas ao seu redor.

Aos 36 meses, foi notado que o filho de mãe com depressão pós-parto ignora mais os pedidos maternos como, por exemplo,  interromper brincadeiras e ajudar a guardar os brinquedos.

APOIO FAMILIAR

A psicóloga Patrícia Bader, coordenadora do serviço de psicologia do Hospital São Luiz, diz que a família é quem pode notar os primeiros sinais de depressão puerperal.  “ Em geral a mulher apresenta sinais de tristeza, desânimo, irritabilidade e inquietação”, explica (veja quadro).

A recomendação é que a família procure ajuda especializada. “É importante .  entender que a puérpera não tem a intenção de ficar desse jeito e que seu afastamento não é sinal de desamor.” Patrícia explica que um médico vai poder identificar se é realmente depressão pós-parto e não apenas baby blues, que é uma alteração de humor passageira que normalmente acontece nos primeiros dias após o nascimento do bebê. Esses sintomas tendem a desaparecer em até 15 dias.

Mulheres com baby blues não deixam de realizar as tarefas exigidas pela presença do bebê. “Muitas vezes a privação de sono, em decorrência da rotina do recém-nascido, contribui para o quadro”, comenta.

Já no caso da depressão, a psicóloga explica que muitas vezes a mulher deixa de cuidar e teme pelos cuidados em relação ao bebê. “Ela pode tanto impedir a presença de outros, temendo que façam mal para o filho, quanto delegando por completo os cuidados a terceiros”.

Nesses casos, diz Patrícia, a avaliação médica para definir o uso de medicamentos e o acompanhamento psicológico são fundamentais. Os remédios, quando necessários, são prescritos para que não haja prejuízos para o bebê durante a amamentação.