Natal sem presente (e o trauma da chave Philips)

Por FABIANA FUTEMA

Vou defender a criação da profissão de montador de presentes de Natal. É muito chato ver a carinha de decepção da criança depois de receber um presente que precisa ser montado para poder funcionar.

Alguns são fáceis. Encaixa daqui, parafusa de lá e o brinquedo está pronto. Outros parecem tarefa para engenheiro nas mãos de adultos desengonçados.

Minha última gafe natalina ocorreu no fim de semana passado. Estava me achando a tia descolada quando levei para meu sobrinho de 6 anos um jogo em que dois peões duelam dentro de uma arena.

Ele desembrulhou a caixa e gritou: maneiro! Em seguida, pediu para ajudá-lo a montar. Descobri que os peões usavam pilhas (não tinha levado). E que para inserir as pilhas precisava de uma chave Philips (suei frio).

Meu sorriso de satisfação ficou amarelo e fomos eu e o menino procurar uma chave Philips pela casa. Ele descobriu uma caixinha com várias chaves de tamanhos diferentes. Mas a ponta estava separada do cabo. Ou seja, era preciso montar a chave. Não consegui.

Então peguei só a ponta e tentei abrir o compartimento de pilhas. Girava, girava e nada. Acho que o tamanho da chave não era o mesmo do parafuso. Ou o parafuso estava espanado. Saí da casa do sobrinho duas horas depois sem ter conseguido montar o brinquedo.

Liguei para lá no dia seguinte e descobri que o brinquedo foi montado depois, mas só um peão estava funcionando. Fiquei triste por ele, pois o legal do brinquedo era o duelo de peões. Brincar só com um não tem graça.

A inabilidade manual persistiu no Natal. Meu marido deu de presente para meu filho um carrinho de controle remoto. Lógico que precisava de chave Philips para colocar pilhas no carrinho e no controle. Pior, agora alguns brinquedos vêm com uma parte de plástico para ser tirada (também com chave Philips).

Em meio ao choro do filho, que queria o carrinho, meu marido demorou mais de uma hora para botar o brinquedo para funcionar.

Irritado, ele chegou a dizer que o brinquedo veio quebrado e iria devolver. Até que lembrou que tinha uma caixa com outros tamanhos de chave Philips. Deduzo que a dificuldade toda se deveu ao tamanho inadequado _mas evitei comentar para não irritar mais.

Daí que percebi que lá em casa somos bem inábeis com essa coisa de montar brinquedo. Quando estava grávida, comprei um móbile de berço e não soube montá-lo. Levei numa loja e paguei uma ‘caixinha’ para um funcionário fazer o serviço por mim.

Para famílias como a minha, o montador de brinquedos seria um profissional mais que requisitado. Fora que ele deveria cobrar um adicional por trabalhar nos feriados de Natal,

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Percebi a futilidade da minha preocupação com montagem de brinquedos ontem à tarde ao conversar com uma garotinha no playground do meu prédio.

Depois de perguntar para várias o que tinham ganhado do Papai Noel, essa me respondeu que nada. E depois emendou dizendo que o mais importante era o amor que ela recebia o ano inteiro da família.

Foi um balde de água fria na minha cara. Fiquei meio sem reação. Não sabia se era por motivo religioso ou financeiro que a garotinha não ganhou presente. Perguntei se ela acreditava em Papai Noel e ela disse que imaginava que ele era um santo ajudando as pessoas.

Em vez de montador de brinquedo, deveria me preocupar com o verdadeiro sentido do Natal. Fica a resolução para tentar passar essa mensagem para meu filho no próximo Natal.

Feliz 2014!