Quanto a mãe ganha ao ficar com o filho após a licença-maternidade?

Por Giovanna Balogh

O retorno de uma mãe ao trabalho vai além da dor da separação física. Como continuar com a amamentação, com quem deixar o bebê, como suprir a ausência da mãe nesse período, maneiras de organizar a nova rotina entre outras questões fazem parte dessa dolorosa separação.

A educadora Laura Uplinger diz que muitas mulheres no fim da licença maternidade pensam apenas no que vão perder ao largar o emprego. O bom salário, a carreira, o status de mulher independente, mas ela diz que precisamos ver com outro olhar, ou seja, o que vamos ganhar ao ficar integralmente com nossos filhos pelo menos no primeiro ou, quem sabe, até o segundo ano de vida. “Quem serve a vida recebe um pagamento muito maior, não financeiro, mas são impagáveis os benefícios que terá essa criança no futuro”, comenta.

Laura diz ainda que sente vergonha da licença maternidade ser de apenas quatro meses no Brasil. Atualmente, apenas servidoras públicas têm o direito aos seis meses de licença enquanto no setor privado o benefício é facultativo, ou seja, poucas empresas optam em oferecer. Segundo Laura, cada vez mais as mães têm colocado na ponta do lápis as despesas e notado que manter a creche, a empregada, e ficar longe do filho não compensa o salário. “Muitas abrem mão do segundo carro, optam em mudar de cidade, enfim, acham meios de reduzir as despesas e ficar em casa”, diz.

A discussão sobre o assunto é muito ampla e polêmica. Foi pensando nisso que Bia Siqueira e Gui Abrunhosa decidiram fazer um documentário chamado “Com Licença”.

O objetivo principal do trabalho, segundo Bia, é questionar se não há um certo “comodismo” quando se trata desse assunto. “É como se não houvesse mais o que fazer, mas sempre há o que fazer. As mulheres parecem ter medo de colocar a família em primeiro lugar. Por que o medo de falar pro chefe que precisa sair no horário para buscar o filho? Somos nós que precisamos iniciar a mudança”, comenta.

O documentário, que ainda está na fase de entrevistas, quer mostrar também que a redução da carga horária para a mulher que retorna da licença-maternidade é uma opção. Os produtores dizem que ela é benéfica tanto para a empresa como para a sociedade.

“A mulher e o bebê precisam de tempo para essa adaptação à nova vida. A amamentação muitas vezes é interrompida nesse momento pela enorme dificuldade que é mantê-la. A introdução à papinha é feita precocemente para que a mãe volte a trabalhar. O vínculo é bruscamente cortado. É uma dor insuportável que só a mãe e o bebê sentem, e todos perdem”, comenta. A recomendação do Ministério da Saúde e da OMS (Organização Mundial da Saúde) é que o aleitamento materno seja feita de forma exclusiva até os seis meses e como complemento até os dois anos ou mais, ou seja, a introdução de frutas e papinhas só deve ser feita a partir do sexto mês de vida do bebê.

A jornalista Helena Roballo, 31, conta que várias dúvidas passaram pela sua cabeça quando teve que voltar ao trabalho quando o filho tinha apenas quatro meses de vida. Ela conta que, além de sofrer ao ficar longe do filho, teve muitas dificuldades para introduzir precocemente as papinhas na vida do menino e que o fato de não seguir com a amamentação também a intrigava. “O que eu queria mesmo era poder amamentá-lo, dar o meu leite. Em nenhum momento tinha passado na minha cabeça dar leite artificial durante a minha ausência. Preconceito? Nenhum. Mas, se eu tinha leite, por que descartar?”, questiona. Helena diz que ficava muito aflita pois ele não aceitou logo de cara a papinha.

Ela conta que por um período conseguiu tirar o leite para deixar para o filho, mas que para ordenhar enfrentava desafios. “Tinha que pedir permissão para isso no trabalho, fora que não tinha onde tirar leite e precisava fazer isso no banheiro do escritório. Mas, não é fácil e muitas desistem”, diz Helena, que conseguiu manter o leite materno até os dez meses de vida dele.

Para Helena, a licença maternidade deveria ser de no mínimo seis meses para todas as mulheres. “O ideal era que dos seis meses até dois anos da criança, a mãe deveria poder optar por uma jornada reduzida, mesmo que isso signifique redução salarial ou perda de algum benefício”, opina.

Assim como muitas mães, Helena diz que não teria condições financeiras de parar de trabalhar e que seus pais sempre mostraram a importância da independência da mulher e o poder que elas têm em conseguir conciliar a vida pessoal com a profissional. “Tinha medo de pedir demissão e depois que ele crescesse não conseguisse retomar ao mercado de trabalho”, conta a jornalista, que tem a mãe e a sogra que revezam os cuidados com o filho.

Durante as pesquisas para o filme, os produtores notaram que são poucas as mulheres que optam em largar a carreira, embora muitas acabam mudando de área e abrindo um negócio próprio, o chamado empreendedorismo materno. “Muitas mães começam seus pequenos negócios para ter flexibilidade de tempo. Muitas acabam percebendo que o antigo trabalho não as satisfaz mais”, comenta Bia.

Outra discussão que será abordada no documentário é incentivar o aumento da paternidade, que hoje fica restrita a cinco dias. “O envolvimento do pai é fundamental nesse momento, e a sociedade precisa reconhecer isso”, diz Bia.

Para conseguir concluir o documentário, os produtores fizeram um crowdfunding (financiamento coletivo) nos mesmos moldes do feito pelo Renascimento do Parto. A ideia é arrecadar R$ 75 mil para finalizar as filmagens e a produção do filme. O valor, no entanto, não contempla a finalização do filme nem a produção do DVD, mas garante que sejam feitas todas as entrevistas sem o patrocínio via empresas. Caso a meta não seja alcançada, o dinheiro é devolvido aos participantes.

O documentário, que terá duração de 70 minutos, foi aprovado pela Lei Rouanet. “Por acreditarmos que esse é um projeto coletivo, que diz respeito a cada um de nós, optamos por arrecadar o montante que falta para finalizar as filmagens via financiamento coletivo. Essa é uma discussão urgente pois estamos falando do futuro dos nossos filhos e da possibilidade de criarmos melhores adultos para o mundo”, comenta Bia. E na sua casa, qual foi a solução encontrada para conciliar filhos, casa e carreira? Confira o trailer do documentário abaixo: