Crianças devem brincar de ‘lutinhas’?

Por Giovanna Balogh

Na porta da escola o pai confessava que estava com ‘medo’ porque em breve será pai de uma menina. “Com menino é mais fácil, brincamos de lutinha e com ela não vai dar para ser assim”, disse o pai de um garoto que ainda nem completou quatro anos.

Parece que muitos pais têm a necessidade de auto afirmar o tempo todo que os filhos são machos, que só podem brincar de carrinho, de super-herói, de armas, espadas e, principalmente, brigar. “Criança não tem discernimento para distinguir a realidade da fantasia, o que certamente as leva a repetir o comportamento onde quer que vão, como nas escolas. Brincar de lutinha com o filho em casa pode sim influenciar que a criança venha a bater nos coleguinhas, pais, avós e até nos professores”, comenta a psicopedagoga Lilian Rodrigues Santos.

Para Lilian, as crianças e adolescentes seguem exemplos, então, os pais devem buscar os melhores possíveis para serem passados para seus filhos. Para ela, devemos ficar atentos desde a maneira como agimos com os nossos filhos como também na relação com o nosso companheiro e com terceiros. Nada de lutas, mas também esqueçam os gritos e ofensas. Xingar o motorista que deu uma fechada no seu carro na frente do seu filho, por exemplo, já é um exemplo de violência que deve ser riscado do nosso cotidiano. Outro fator é limitar os brinquedos que incitem violência, como arminhas e espadas, e controlar o que se vê na TV , em joguinhos de tablets e também em games.

Lilian diz que em uma pesquisa feita no ano passado em seu consultório mostrou que 74% das crianças e adolescentes que estavam sendo avaliados por ela com problemas de agressividade, desobediência, dificuldades de aprendizado, entre outros, assistiam filmes e games com algum tipo de violência. Segundo ela, 92% dos pais admitiram que assistiam TV duas horas por dia enquanto os filhos ficavam mais de cinco horas na frente da TV, ou seja, assistiam conteúdos nem sempre supervisionados pelos responsáveis. “Até pelo menos os sete anos de idade, o recomendado é que não fiquem mais de 15 minutos por dia na frente da TV e, no máximo, duas horas no final de semana para crianças acima de quatro anos”, explica.

Somente 2% dos pais pesquisados afirmavam que contavam histórias infantis para os filhos ao menos três vezes por semana e apenas 3,5% brincava com eles diariamente depois do trabalho. “Como resultado, temos crianças que passam muito menos tempo ao ar livre do que em outras gerações e, é claro, tem pouca oportunidade de desenvolvimento da criatividade e de uma personalidade própria”, alerta.

Já o psicólogo João David Mendonça, sugere três palavrinhas aos pais: presença, filtro, e alternativas. “Os pais devem estar presentes para assistir o desenho ao lado da criança, para ajudar a desenvolver criticidade. Assiste e vai dizendo o que é ou não legal no desenho”, comenta. No caso de desenhos ou games que os pais consideram violentos demais, ele recomenda filtrar e explicar para o filho. “Ajuda ele a perceber que algumas coisas são possíveis e outras não e esse filtro vale para a vida toda.” Já a terceira opção é ainda mais fácil, ou seja, qual motivo de manter a criança tanto tempo na frente da TV? O melhor é buscar alternativas que permitem uma maior interação e não utilizar a TV como sendo uma babá eletrônica. “Se usada dessa maneira, a criança fica mais vulnerável às influências negativas.”

‘LUTINHAS LÚDICAS’

Mas, e quando a criança tem a iniciativa de começar a brincar de lutinha ao aprender com o coleguinha do parque ou da escola? Nesse caso, o psicólogo recomenda que os pais não se neguem a brincar, mas ensinem como fazer. Mendonça conta que um dia chegou em casa e o filho, na faixa dos três anos, o esperava em um ‘tatame de edredon’ na sala. Ele conta que em sua casa ninguém assiste lutas pela TV nem desenhos violentos. “Entrava no tatame e lá íamos nós para os ‘rounds’. Aos poucos, fui mostrando como fazer a brincadeira para  não se transformar em briga, como fazer para não machucar o outro, e quando parar, que são regras básicas da lutinhas”, comenta. Aos poucos a brincadeira foi perdendo o interesse e foi substituída por futebol, cabaninhas, entre outras atividades.

Mendonça aconselha os pais a mostrar para as crianças a diferença entre ‘lutinha lúdica’ (quando pais e filhos brincam com forças moduladas) e ‘lutinha violenta’ (em que não há modulação de intensidade, deixando de ser brincadeira). “Se uma criança desde cedo tem contato com lutinhas, mas não tem nenhum tipo de violência ou punição física, ele terá mais probabilidade de não se envolver com brigas e violência, porque o aprendizado lúdico da lutinha a ensinou que violência não combina com o prazer que a brincadeira proporciona”, comenta. Por outro lado, diz o psicólogo, a criança que não tem contato com lutinhas, mas vivencia outros tipos de violência, terá mais possibilidade de se tornar um adulto briguento.

Sobre espadas e arminhas, ele diz que esses objetos fazem parte do imaginário da criança, então, ele acha que não deve ser proibido, mas também não pode ser estimulado. “Armas e espadas fazem parte do imaginário das crianças. Se ela não tem uma espada, vai transforar qualquer objeto em uma. A proibição só aguça mais a vontade de ter, por isso, prefiro pensar em estratégias como dizer que esses brinquedos não são legais pois são instrumentos que as pessoas usam para fazer mal aos outros e aos animais”, comenta.

Para a psicopedagoga, os pais e cuidadores das crianças devem mudar os hábitos antes dos quatro anos da criança. “Se o hábito ainda não foi totalmente modificado até por volta dos 6 ou 7 anos, poucos são os que depois conseguem atingir o nível de desenvolvimento intelectual, físico e emocional de um adolescente que pouco  foi exposto à violência, tenha sido ela verbal, emocional, física ou televisiva”, explica. A psicopedagoga conta que a procura por tratamento do TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade) cresceu mais de 80% em 10 anos, pois as crianças têm apresentado mais agressividade, agitação, dificuldades na escola ou desobediência. “Pais e professores logo pensam em TDAH, mas das crianças que chegaram até nós depois de passarem por psiquiatras com suspeitas ou diagnóstico de TDAH, até hoje, nenhuma delas precisou voltar a tomar medicação. Sabe por que? As causas eram outras”.

Para permitir que nossas crianças cresçam de forma mais saudável, ela recomenda que pais, avós, cuidadores observem a rotina delas diariamente para notar de onde está partindo a violência e agressividade daquela criança. Pergunte sempre: você tem estado suficiente com ele? Tem participado da vida dele ? Proporciona atividades próprias para a idade dele? Ajuda a resolver problemas dele? Escuta seu filho? Brinca com ele?