‘Terapia do medo’ não deve ser usada para educar

Por Giovanna Balogh
Meninas choram assustadas durante confronto em morro do Rio (Foto:Fernando Bizerra Jr - 27.nov.2010/Folhapress)
Meninas choram assustadas durante confronto em morro do Rio (Foto:Fernando Bizerra Jr – 27.nov.2010/Folhapress)

“Não vai lá senão o bicho papão te pega”, “para de fazer isso senão te jogo no lixo”, “vamos embora senão te deixo aí sozinho”.  Muitas vezes os pais fazem ameaças e colocam medos na cabeça dos pequenos para conseguir o que querem. Mas, a ‘terapia do medo’ para educar não dá certo.

Ao falar sobre a polêmica mordida que o jogador uruguaio Luis Suárez deu no italiano Chiellini na Copa, o ex-jogador Ronaldo disse que suas filhas pequenas já o morderam. “Na minha casa, a punição se chama quarto escuro com lobo mau”, declarou o jogador.

Educadores e psicólogos são unânimes em dizer que a atitude do jogador não faz a criança deixar de morder, mas a ter medo e a ficar assustada ao ser colocada em um quarto escuro sozinha, ou melhor, ‘acompanhada’ do tal lobo malvado que come a vovozinha e destrói as casinhas dos três porquinhos.

O papel dos pais nessas situação é explicar que morder dói, que naquela casa ninguém morde, que morder é feio, ou seja, o nosso papel é dar conforto e criar uma relação com a criança para que ela queira recorrer aos pais em situações de perigo e insegurança.

Ou seja, mães, pais, avós e cuidadores não devem colocar medos nos seus filhos para que eles obedeçam ou façam aquilo que eles querem. Ameaçar, não é a solução e sim um ato de violência.

Claro que não há regras e cada situação é uma. Ao ver o filho fazendo uma ‘birra’ porque não quer ir embora do shopping, por exemplo, o pai não deve ameaçar deixar a criança sozinha lá, mas abaixar e olhar no olho dela e dizer que outro dia eles vão voltar, por exemplo. Não há regras, ou seja, cada dia o pai terá de contornar com cada uma das situações que aparecem no seu dia a dia respeitando a criança e, é claro, sempre conversando com ela.

A vida por si só já oferece centenas de frustrações, medo e ansiedade para nós e nossos filhos, então, não são os pais que devem exaltar esses sentimentos. “O nosso lado tem que ser  o da segurança emocional. O nosso papel é ofertar um ninho protetor, um porto seguro onde elas ancorem suas emoções negativas (como medo, raiva, tristeza) depois de voltarem de suas explorações infantis no mundo”, explica o psicólogo e terapeuta familiar, Alexandre Coimbra Amaral, do instituto de psicologia Rodaviva.

O psicólogo explica que nas historias infantis, quem tranca os príncipes e princesas no alto da torre escura, nos calabouços e afins são as bruxas, os violões. “É este o lugar que um pai quer construir na relação com o seu filho? O que a criança aprenderá? Que garantia de segurança ela terá de que ele a defenderá em momentos de angústia?”, questiona.

Para ele, o resultado disso é construir uma distância entre pais e filhos e uma relação ingrata. “Quando acontecer algum evento em que o pai poderia ser acionado para protegê-la, a criança vai preferir consultar outra pessoa, para não correr o risco de ser ‘colocada no calabouço novamente’”, comenta.

Ou seja, ameaçar, colocar medo nos nossos filhos só vai construir vulnerabilidade, ambivalência na relação pai-filho, sensação relativa ou perda de segurança emocional. “Com certeza não é isso que queremos para nossos filhos, não é isso que eles querem de nós”, afirma.