Médicos e pais fazem protesto contra fechamento de maternidade do hospital Santa Catarina

Por Giovanna Balogh
Enfermeira cuida de recém-nascidos no berçário do Santa Catarina (Foto: Joel Silva - 1º.ago.2008/Folhapress)
Enfermeira cuida de recém-nascidos no berçário do Santa Catarina (Foto: Joel Silva – 1º.ago.2008/Folhapress)

Mães com bebês, médicos, enfermeiros e outros funcionários do hospital Santa Catarina organizam um protesto para a próxima  segunda-feira (28) contra o fechamento da maternidade. A unidade de saúde anunciou nesta semana que vai encerrar o setor em três meses e investir em áreas de maior complexidade, como oncologia e cirurgias.

O evento, que deve ocorrer às 10h no saguão do hospital, está sendo organizado por meio das redes sociais. Os manifestantes prometem levar balões e cartazes com fotos de bebês nascidos no local. A ideia é que o hospital se sensibilize e desista de fechar a maternidade, que funciona há 35 anos em plena avenida Paulista (região central de SP). A unidade de saúde realiza, em média,  240 partos por mês. Ao todo, cerca de 140 mil bebês nascerem na unidade.

O engenheiro Pedro Parizotto, 30, pretende participar da manifestação. Ele conta que a filha Helena nasceu prematura em dezembro do ano passado e ficou quase 50 dias internada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) neonatal do Santa Catarina. “Será que não haveria uma forma de viabilizar a manutenção da maternidade, mesmo que de forma reduzida. Me entristece saber que por trás da decisão está uma congregação católica que rendeu seus valores cristão ao dinheiro”, comenta.

A maternidade, que é administrada pela  Associação Congregação Santa Catarina, é uma das principais opções, juntamente com o hospital São Luiz, por mães que querem ter o parto normal humanizado. O hospital tem permitido que, se for a vontade da mãe, ela fique com o bebê o tempo todo após o parto em alojamento conjunto.

Sem o Santa Catarina, as parturientes devem migrar para o São Luiz, que também conta com salas preparadas para o parto normal. Procurado, o hospital informou que está preparado para atender a demanda.  Juntas, as duas unidades do São Luiz contam com 203 leitos na maternidade. O Albert Einstein, que também seria uma outra opção humanizada, não aceita os convênios mais básicos das gestantes.

Algumas gestantes também devem migrar para o Santa Joana e o Pró-Matre, que ficam próximos ao Santa Catarina. As  maternidades são consideradas de referência em cesáreas e gestação de risco. O Maternar procurou os hospitais e eles informaram que estão preparados para atender mais pacientes que vão migrar do Santa Catarina.  Santa Joana e Pró-Matre contam com, respectivamente, 142 e 106 quartos.

A ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) diz que com o fechamento da maternidade, os planos de saúde devem dar cobertura para as pacientes em outro hospital que tenha a mesma qualidade de atendimento e de serviço de hotelaria do que o prestado pelo Santa Catarina.

Procurado, o Santa Catarina informou que respeita a manifestação, mas nega qualquer possibilidade de manter a maternidade aberta. Questionada se os funcionários do setor serão demitidos, o hospital informou que apenas parte será mantida e realocada nos serviços de expansão como área de oncologia, neurologia, cardiologia, ortopedia e cirurgia do aparelho digestivo. “Nosso corpo clínico é aberto, portanto, os médicos que atuam em nossa maternidade trabalham também nas grandes maternidades de São Paulo”, informou o hospital, por meio de nota.

MOTIVOS DO FECHAMENTO

De acordo com o hospital, a partir do dia 1º de agosto, será iniciado o processo de fechamento do setor e, com isso, serão encerradas as atividades da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) neonatal, do berçário, do centro obstétrico e do pronto-atendimento obstétrico.

“Para garantir o atendimento de nossos pacientes, os serviços serão mantidos por 90 dias, período superior ao exigido pela legislação, se encerrando no dia 31 de outubro”, diz o Santa Catarina.

O hospital afirma, por meio de nota, que a ideia é ampliar a atuação em cirurgia de alta complexidade em especializadas como oncologia, neurologia, cardiologia, ortopedia e cirurgias do aparelho digestivo.

“As altas taxas de ocupação e a expressiva demanda por leitos hospitalares relacionadas ao progressivo envelhecimento da população brasileira e à necessidade de revitalização da maternidade foram fatores decisivos para a tomada de decisão”. Atualmente, diz o hospital, a taxa de ocupação mensal é de, em média, 87% dos seus 327 leitos.

O especialista em administração hospitalar Walter Cintra Ferreira Júnior disse que a tendência é que mais hospitais gerais localizados em grandes metrópoles optem em fechar as suas maternidades. “O Sírio Libanês, por exemplo, nunca teve maternidade e nunca terá pois é pouco lucrativo”, diz Ferreira Júnior.

O especialista afirma que esses espaços são poucos rentáveis pois, se tudo corre bem, mãe e bebê ficam poucos dias internados e necessitam de poucos medicamentos, independente se o parto é normal ou cesárea.

“Boa parte das receitas dos hospitais vem de materiais e de medicamentos. Um paciente de oncologia que faz quimioterapia, cirurgias, que precisa de UTI repassa um valor muito maior para o hospital do que uma parturiente”, comenta.

O hospital, no entanto, não quis se manifestar sobre questões financeiras. Disse apenas que investirá R$ 42 milhões neste ano e que tem notado aumento na procura de exames, internações, cirurgias e atendimento oncológico.