Casa de parto da prefeitura decide restringir acesso de doulas

Por Giovanna Balogh
A empreendedora Marina Dias, 25, teve sua filha há seis meses na casa de parto  (Foto: arquivo pessoal)
A empreendedora Marina Dias, 25, teve sua filha há seis meses na casa de parto (Foto: arquivo pessoal)

A casa de parto de Sapopemba, na zona leste de SP, decidiu restringir a entrada de doulas – mulheres que dão assistência para a gestante antes, durante e após o parto. A unidade é da prefeitura e a única totalmente pública da cidade que permite à gestante um parto humanizado.

A casa de parto, que é administrada pela organização social SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina),  diz que não proíbe a entrada das doulas, mas que ela poderá ficar com a gestante desde que entre como acompanhante dela. Como cada paciente tem direito a só um acompanhante, na prática essa nova regra significa que a gestante terá de escolher se vai querer a doula ou o pai da criança, por exemplo, durante o trabalho de  parto e na hora do nascimento. Medida parecida foi adotada pelos hospitais Santa Joana e Pro-Matre em 2013 e, após uma série de protestos, o hospital decidiu recuar da decisão.

Procurada, a Secretaria Municipal da Saúde informou que a unidade vai continuar permitindo a entrada das doulas. “Como parte do processo de qualificação do atendimento, a direção está revendo seus fluxos de trabalhos, o que inclui a participação destas profissionais, importantes para a gestante”, diz a nota enviada pela pasta. Uma reunião deve ocorrer ainda nesta semana para definir como serão feitas as mudanças.

Já a SPMD informou que a medida foi adotada “visando a segurança de nossas pacientes, seus bebês e funcionários da instituição”. A nota enviada pela entidade diz ainda que para melhorar a “segurança” foi preciso criar regras para o número de acompanhantes. Sem dar detalhes, a entidade diz que vai permitir apenas a presença de doulas voluntárias da casa de parto. Atualmente, a gestante pode levar qualquer doula que foi contratada por ela e que acompanhou a gestação e sabe do histórico da paciente. Isso não acontece, por exemplo, com as doulas voluntárias que a entidade diz que disponibilizará.

A casa de parto atende gestantes de baixo risco e permite o parto humanizado, ou seja, a mulher pode ter o bebê dentro da banheira, se movimentar e se alimentar durante o trabalho de parto. Outra vantagem das casas de parto é que o bebê não fica longe da mãe em nenhum momento. A alta da mãe e do filho, se tudo ocorrer bem, acontece em 24 horas.

Na casa de parto de Sapopemba são feitos, em média, 20 partos por mês. O local, no entanto, tem capacidade de atender até 60 nascimentos. Em entrevista ao Maternar em setembro do ano passado, a gerente da casa Kátia Guimarães disse que a baixa procura ocorre por conta da cultura cesarista da nossa sociedade. Boa parte das pacientes atendidas no local são mulheres que têm convênio médico e optam pela casa de parto justamente para ter um parto natural respeitoso. A tendência agora é que as parturientes migrem para a Casa Angela, no Jardim Mirante (zona sul de SP), que faz atendimento gratuito para moradores da região, mas cobra para quem é de fora. O local não divulga o valor do parto já que cada caso é estudado individualmente e o pagamento pode ser negociado.

A proibição das doulas, segundo médicos e ativistas do parto normal, vai contra a proposta da casa de humanizar os nascimentos. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, as doulas não fazem nenhum tipo de procedimento médico ou de enfermagem na parturiente.

Essas mulheres estão ali para dar suporte emocional, físico e até afetivo ao casal, principalmente, durante o trabalho de parto. São elas que ajudam a fazer massagens para aliviar as dores na contração e orientam nas posições que podem dar mais conforto para as mulheres nesta hora. Também incentivam com palavras de apoio dizendo, por exemplo, que a cada contração o bebê está mais perto de estar nos seus braços ou dando uma ajuda simples e que na hora faz muita diferença, como preparar um lanche para a futura mãe ou encher a banheira para ela entrar e aliviar as dores.

A empreendedora Marina Dias, 25, teve sua filha há seis meses na casa de parto e lamenta a decisão. Ela conta que para ela a presença da doula de sua confiança foi de extrema importância. “Ela me deu apoio e segurança para que eu pudesse ter a força de parir naturalmente como planejei. Ela me ajudou a não sofrer e a entender a fisiologia do meu corpo”, comenta.

O papel delas dentro de um parto é de extrema importância já que estudos mostram redução de 20% nas taxas de cesariana. A presença dessa acompanhante mostra ainda que reduz a necessidades de outras intervenções como o uso de  fórceps, analgesia e episiotomia (corte no períneo), além de aumentar a satisfação da mulher com a experiência do parto.

Nos EUA, as doulas atuam há cerca de 30 anos, mas no Brasil o movimento começou a ganhar força nos últimos anos já que o primeiro curso para a formação delas foi criado em 2001. Apesar de não haver números oficiais, são entre 2.000 e 4.000 doulas no país. Existem as profissionais voluntárias – que normalmente atendem em hospitais públicos – e as que cobram pelo serviço. O valor pode variar bastante e normalmente é calculado de acordo com a renda da família – muitas vezes, o valor cobrado chega a ser simbólico pelo grande período que elas dedicam à parturiente.

Qualquer pessoa pode ser doula, ou seja, não precisa ser um profissional ligado à área da saúde, mas é preciso fazer um curso de formação e se cadastrar nos hospitais antes de poder acompanhar um parto.