Hospital que lidera cesáreas proíbe parto humanizado em Minas Gerais

Por Giovanna Balogh
Parto humanizado realizado no ano passado no hospital MadreCor (Foto: Lali Ribeiro)
Parto humanizado realizado no ano passado no hospital MadreCor (Foto: Lali Ribeiro)

O Hospital e Maternidade MadreCor, em Uberlândia (MG), proibiu neste mês o parto humanizado na unidade de saúde, que era a única particular da cidade que permitia esse tipo de atendimento à gestante.

De acordo com o diretor técnico do hospital, José Nei Cortes Marinho,  os partos normais poderão ser realizados, mas apenas no centro cirúrgico e a mulher terá de ficar deitada, em posição ginecológica. A parturiente, explica ele, será levada ao centro cirúrgico apenas quando já estiver com dilatação avançada.

A medida vai na contramão do que é proposto pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e pelo Ministério da Saúde. De acordo com médicos e obstetrizes, parir deitada só aumenta as dores e dificulta o período expulsivo.

Ativistas do parto humanizado procuraram o Ministério Público e o promotor de Justiça Fernando Rodrigues Martins recomendou que a unidade permita o parto humanizado das gestantes que estão com 37 semanas e que planejam ter seus bebês na unidade nas próximas semanas. Ao todo, quatro mulheres seriam beneficiadas.  O hospital não informou, no entanto, se vai ou não acatar o pedido. No próximo dia 2, um representante do hospital deverá comparecer ao Ministério Público para prestar esclarecimentos sobre o assunto.

GRITOS INCOMODAM  E CESÁREAS LIDERAM

A médica Silvia Helena Caires que, nos últimos quatro anos atendeu cerca de 150 partos humanizados na unidade, lamenta a decisão. Ela diz que a tendência é que mais mulheres optem pelo parto domiciliar já que não há na cidade hospitais particulares que respeitam e entendem a fisiologia do parto.

“A justificativa que me deram é que os gritos das mulheres em trabalho de parto incomodavam os outros pacientes. Seria muito simples o hospital criar um quarto com isolamento acústico, por exemplo, e continuar permitindo a humanização dos partos”, comenta.

A obstetra diz que infelizmente a direção da unidade tem uma visão da medicina tradicional e não na baseada em evidências científicas. “Ninguém está disposto a fazer uma autocritica e reavaliar o que vem fazendo”, diz.

Questionado se os gritos das parturientes era um problema, o diretor técnico disse que não e afirmou que falta espaço físico adequado. A decisão também foi tomada porque há “processos judiciais por ‘erro médico’, em virtude de recém-nascidos que apresentam problemas após o parto, onde o hospital é parte com co-responsável”, diz Marinho. O hospital não informou, no entanto, quantos e quais processos são esses.

A médica afirma que esse tipo de atitude visa aumentar o número de cesáreas. A unidade de saúde tem mais de 97% dos nascimentos feitos por cesáreas, segundo dados do próprio hospital. Em 2013, foram 930 e apenas 23 partos normais. Neste ano, foram 569 cirurgias e oito nascimentos por via vaginal. A OMS recomenda que apenas 15% dos partos sejam feitos por meio de cirurgias.

Além de aumentar ainda mais as cesáreas, profissionais que atendem partos humanizados dizem que a medida de atender somente no centro cirúrgico fará com que mais mulheres sejam submetidas a intervenções desnecessárias, como episiotomias, e outros tipos de violência obstétrica. Dentro do centro cirúrgico a mulher não poderá, por exemplo, utilizar de recursos que aliviam as dores da contração, como o uso de água morna, massagem, mudar de posição, etc.

Nos últimos anos o MadreCor permitia que as mulheres tivessem seus filhos de forma natural, ou seja, sem intervenções e com a presença, por exemplo, de doula e obstetriz.

Os partos aconteciam  em apartamentos normais que, por serem espaçosos, permitiam que a equipe levasse equipamentos que facilitam o trabalho de parto da mulher como, por exemplo, a bola de pilates e a banqueta para facilitar o parto de cócoras.

A doula Alessandra Araújo conta que as gestantes podiam se movimentar, utilizar o chuveiro e se alimentar durante o trabalho de parto.  “As equipes podiam montar piscina inflável no quarto que funcionava como banheira para aliviar as contrações da gestante”, comenta.

A enfermeira Adriana Scalia Santos Braz, 33, teve dois de seus três filhos na unidade de saúde. Ela conta que no parto da filha Ana, ocorrido há quatro anos, teve de se deslocar para o centro cirúrgico quando o bebê estava prestes a nascer. “Queriam me obrigar a deitar e colocar as pernas no estribo, mas eu não deitei. Tive minha sentada após muito estresse e discussão”, comenta.

No terceiro parto, ocorrido no ano passado, a situação foi outra.  Adriana conta que teve seu bebê no quarto, dentro da banheira e com meia-luz e sem qualquer intervenção e com a presença da doula, da médica e do marido. “O que estão fazendo é um retrocesso ao proibir a melhor forma de nascer que são baseadas em evidências científicas.  É mais fácil proibir, é mais fácil insistir na cesárea do que se adequar e construir, por exemplo, suítes para o parto normal”, lamenta.

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PAIS E ATIVISTAS FAZEM PROTESTO

Revoltados com a proibição, mães, pais, gestantes, doulas, médicos e outros profissionais da saúde organizam para o próximo sábado (27) à tarde  um protesto em frente à maternidade, localizada no Triângulo Mineiro.

Além de cartazes, o grupo entregará panfletos na porta da unidade de saúde e pretende dar um abraço simbólico no prédio. O evento está sendo organizado pelas redes sociais.