Pais e bebês protestam após hospital de MG proibir parto humanizado

Por Giovanna Balogh
Menina mostra foto do seu nascimento (Foto: Alinne Siqueira Fotografia)
Menina mostra foto do seu nascimento (Foto: Alinne Siqueira Fotografia)

Bebês, gestantes, crianças, pais, doulas, médicos, obstetrizes e enfermeiras fizeram na tarde de sábado (27) um protesto na porta do Hospital e Maternidade MadreCor, em Uberlândia (MG). A unidade de saúde proibiu neste mês o parto humanizado, que era a única particular da cidade que permitia esse tipo de atendimento à gestante.

Boa parte dos manifestantes usava camisetas com fotos de partos e levavam bexigas e cartazes escritos “eu nasci aqui” e “pelo direito ao parto com respeito”. Gestantes tiveram as suas barrigas pintadas durante o protesto que tem o objetivo de sensibilizar a direção da unidade para recuar da decisão tomada no início do mês.

A doula Alessandra Araújo participou do protesto e disse que cerca de 200 pessoas estavam no local. “A ideia inicial era fazer o protesto pacífico no estacionamento do hospital, mas seguranças impediram a nossa entrada”, diz a doula, sobre o protesto ocorrido na porta da unidade.

Nenhum dos manifestantes foi recebido pela direção do hospital. Na próxima quinta-feira (2), representantes do hospital deverão comparecer ao Ministério Público para prestar esclarecimentos sobre o assunto.

Ativistas do parto humanizado procuraram a Promotoria que recomendou ao hospital que sejam atendidas de forma humanizada as gestantes que estão com 37 semanas e que planejam ter seus bebês na unidade nos próximos dias. Ao todo, quatro mulheres seriam beneficiadas.  O hospital não informou, no entanto, se vai ou não acatar o pedido.

A unidade de saúde tem mais de 97% dos nascimentos feitos por cesáreas, segundo dados do próprio hospital. Em 2013, foram 930 e apenas 23 partos normais. Neste ano, foram 569 cirurgias e oito nascimentos por via vaginal. A OMS recomenda que apenas 15% dos partos sejam feitos por meio de cirurgias.

Parte dos pais, bebês, crianças e ativistas  que protestaram em frente ao hospital (Foto: Alinne Siqueira Fotografia)
Parte dos pais, bebês, crianças e ativistas que protestaram em frente ao hospital (Foto: Alinne Siqueira Fotografia)

Conforme noticiou o Maternar,  os partos normais poderão ser realizados, mas apenas no centro cirúrgico e a mulher terá de ficar deitada, em posição ginecológica. A parturiente, segundo o diretor técnico do hospital, José Nei Cortes Marinho,  será levada ao centro cirúrgico apenas quando já estiver com dilatação avançada.

A medida vai na contramão do que é proposto pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e pelo Ministério da Saúde. De acordo com médicos e obstetrizes, parir deitada só aumenta as dores e dificulta o período expulsivo.

Nos últimos anos o MadreCor permitia que as mulheres tivessem seus filhos de forma natural, ou seja, sem intervenções e com a presença, por exemplo, de doula e obstetriz.

Os partos aconteciam  em apartamentos normais que, por serem espaçosos, permitiam que a equipe levasse equipamentos que facilitam o trabalho de parto da mulher como, por exemplo, a bola de pilates e a banqueta para facilitar o parto de cócoras.

De acordo com a médica Silvia Helena Caires o hospital justificou a decisão dizendo que os “gritos das mulheres em trabalho de parto incomodavam os outros pacientes”.  A obstetra diz que infelizmente a direção da unidade tem uma visão da medicina tradicional e não na baseada em evidências científicas.

Questionado se os gritos das parturientes era um problema, o diretor técnico disse que não e afirmou que falta espaço físico adequado. A decisão também foi tomada porque há “processos judiciais por ‘erro médico’, em virtude de recém-nascidos que apresentam problemas após o parto, onde o hospital é parte com co-responsável”, diz Marinho. O hospital não informou, no entanto, quantos e quais processos são esses.