Médicas também optam pelo parto domiciliar

Por Giovanna Balogh
A médica Juliana teve o filho Eduardo em casa em junho (Foto: Vivian /Alem d`)
Juliana ao lado do marido logo após o nascimento do  filho; parto foi em casa  (Foto: Vivian Scaggiante/Além D´Olhar)

O parto domiciliar planejado no Brasil ainda é alvo de muitas críticas e preconceitos apesar de alguns países,  como Holanda e Inglaterra, terem esse tipo de parto de forma rotineira. Muitas  vezes quem pretende ter esse tipo de experiência no Brasil chega a esconder de familiares a sua escolha justamente para evitar julgamentos e pressão para escolher o mais tradicional, ou seja, agendar a cesárea em uma maternidade qualquer. Mas, se o parto domiciliar não fosse seguro, por que médicas estariam escolhendo suas casas para os filhos nascerem?

A ginecologista e obstetra Flávia Maciel de Aguiar Fernandes de Mendonça, 37, teve um parto domiciliar há oito meses. A filha Bianca nasceu em casa e a escolha foi tomada após o nascimento do filho Rodrigo ocorrido há pouco mais de dois anos. “Ele nasceu por cesárea eletiva [agendada] sem nenhuma indicação por conta de um medo meu”, comenta. Flávia diz que também era uma “obstetra cesarista”.

“Quando engravidei, agi comigo da mesma forma que agia com as minhas pacientes. Havia medo do desconhecido e um total descrédito no poder do meu corpo e da fisiologia do parto. Após a cesárea, percebi o quanto o processo era frio e desconexo e passei a me questionar e buscar respostas. Foi aí que encontrei o mundo da humanização e mergulhei nele”, relata.

Flávia diz que quando o filho tinha dez meses engravidou de novo e que após assistir o filme “O Renascimento do Parto”, teve a certeza que não gostaria de ter o filho em um ambiente hospitalar.  “Isso me remeteria a toda aquela assistência falida que eu estava tão acostumada. Isso foi o substrato para eu construir o parto domiciliar com o  apoio das parteiras, amigas e colegas da humanização, além do meu marido”, diz. Flávia teve o parto em casa acompanhada por enfermeiras obstétricas ao lado do marido e do filho.

Mãe de primeira viagem, a obstetra Juliana Giordano Sandler, 33, também escolheu parir em casa. Eduardo nasceu na banheira inflável montada na casa dela no início de julho. Para a médica, a escolha foi feita porque existem vários trabalhos científicos sérios que respaldam a escolha do parto em casa como opção segura para gestantes de baixo risco. “Optei pelo parto domiciliar por acreditar na fisiologia do nascimento, e que para que tal processo ocorra naturalmente é melhor que a mulher que está parindo se sinta ao mesmo tempo protegida e dona da situação. Não há melhor lugar que a minha casa pra eu me sentir assim”, relata.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) diz que a mulher deve escolher onde se sente mais segura para ter seu filho. O parto domiciliar, segundo os médicos, é uma opção apenas para gestantes de baixo risco e que têm um plano B com um hospital próximo caso haja alguma intercorrência. Os índices de remoção, no entanto, são pequenos.

INTERVENÇÕES DESNECESSÁRIAS

A médica Marina Bagnara Fernandes, 33, também optou pelo parto domiciliar do filho Raul, que hoje tem 1 ano. A primeira filha, Renata, também nasceu de parto normal, mas no hospital com “várias intervenções desnecessárias”, descreve a médica. “Episiotomia, posição de litotomia, indução medicamentosa, ocitocina sintética, anestesia”, comenta.

Marina, que mora em Ribeirão Preto, no interior de SP, diz que na cidade ainda não há opção de assistência humanizada e que teria que ir até São Carlos para conseguir esse tipo de atendimento em um hospital. “Mas viajar 100 km em trabalho de parto não me agradava apesar de eu saber dos limites da assistência na minha região”, diz.

Marina conta que se formou na USP (Universidade de São Paulo) em 2008 e  que  só depois soube que o estágio em obstetrícia que fez na faculdade era ultrapassado. “A ideia que eu tinha era de que aquela assistência era a melhor e foi muito próximo a isso que tive no meu primeiro parto. Fiquei muito chocada e confusa quando descobri que aquela assistência era ultrapassada, muito intervencionista e que não seguia as melhores e mais atuais evidências científicas”, relata.

Para ela, além de usar práticas inadequadas, como episiotomia de rotina, era uma assistência que pouco se preocupava com o conforto e privacidade da gestante.  “É uma assistência centrada no médico, poucas decisões são compartilhadas, a mulher é obrigada a ficar deitada em uma posição que favorece a equipe e não participa do processo. É comandada o tempo todo, sente medo, insegurança. Muito da dor do parto é devido ao medo que a mulher sente. Os profissionais, geralmente não se preocupam com isso e até desconhecem, não sabem o que fazer”, comenta.

Marina, que também pariu com duas enfermeiras obstétricas, diz que não faz apologia ao parto domiciliar. “Entendo que é uma opção possível e que a escolha deve ser da gestante. Mas, infelizmente, o parto hospitalar de acesso a maioria das mulheres brasileiras deixa muito a desejar”, opina.

O QUE DIZ O CFM?

O CFM (Conselho Federal de Medicina)  diz que o parto normal deve acontecer preferencialmente em ambiente hospitalar, mas não proíbe que os profissionais atendam partos em casa, como tentou fazer o Cremerj (Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro). No mês passado, conforme mostrou o Maternar, a Justiça Federal anulou resolução do Cremerj que proibia médicos de atender partos em casa.

Apesar de não proibir, o CFM publicou recentemente em sua página no Facebook uma foto de um bebê que gerou polêmica. A foto de um bebê que aparentava estar morto ao ter marcações com número no peito da criança levava a mensagem de que o parto domiciliar não é recomendado pela entidade.

A imagem foi compartilhada e criticada por muitos internautas que acusavam a entidade de usar a foto de uma criança morta para chocar.

Procurado pelo Maternar, o CFM disse que os canais das redes sociais “têm o objetivo de informar médicos e sociedade sobre assuntos de interesse para a saúde e a medicina; orientar profissionais e pacientes sobre assuntos relativos à políticas públicas; e estimular hábitos saudáveis de vida”.

Sobre a foto publicada, eles informaram que foi retirada de um banco de imagens internacional que tinha na legenda um bebê recebendo os primeiros cuidados, ou seja, a foto não seria de uma criança morta.

Ainda segundo a entidade, o  uso dessa imagem ilustrou posicionamento da entidade, que defende o parto hospitalar como a forma mais segura para mães e filhos.

“Estudos científicos indicam que nestes ambientes há menor possibilidade de riscos de complicações para ambos. A autarquia defende o parto normal e o respeito às autonomias do profissional e da mulher no contexto da relação médico-paciente. O CFM possui uma Comissão em Defesa do Parto Normal, que trabalha pela redução do número de cesáreas”, conclui a nota.