Hospital do SUS reduz episiotomia ao tirar médico do parto normal

Por Giovanna Balogh

 

Mulher durante parto normal realizado no hospital Sofia Feldman (Foto: Divulgação)
Mulher durante parto normal realizado no hospital Sofia Feldman (Foto: Divulgação)

O hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte (MG), conseguiu reduzir drasticamente o número de episiotomias – corte feito entre a região do ânus e da vagina durante o parto normal – nos últimos 12 anos. O procedimento, que estava presente em 60% dos partos em 1992 é de apenas 4% neste ano.

O diretor clínico do hospital, João Batista Marinho de Castro Lima, atribui o sucesso a uma mudança de prática na unidade: enfermeiras obstetras acompanham os partos normais e não mais os médicos. “Os dados mostram que a queda mais drástica nas episiotomias ocorreu entre os anos de 1998 e 1999 quando colocamos enfermeiras em todos os plantões. Caímos para 10%”, explica. Segundo ele, após a prática deixar de ser rotineira, as lacerações são mais frequentes, mas a maioria de primeiro grau, ou seja, mais simples do que uma episiotomia que é uma cirurgia que provoca uma laceração de, no mínimo, segundo grau.

Para o médico, os médicos não foram formados para atender um parto normal sem episiotomia. Segundo ele, é o que se aprende nas residências médicas e foi o que ele aprendeu também. “Os médicos não são maus. Todos que estão fazendo [a episiotomia] acham que estão fazendo em benefício da mulher. Mesmo com o conhecimento de evidências de que a prática não é necessária, a mudança de prática é difícil. A forma de mudar a prática é no processo de formação”, relata o médico. Segundo ele, os residentes do Sofia Feldman não fazem episiotomia.

Os dados foram passados por Lima durante uma audiência pública realizada na tarde de quinta-feira (23) no Ministério Público Federal. O evento, que lotou o auditório, foi feito após a Procuradoria instaurar um inquérito civil para apurar a violência obstétrica e notar que a episiotomia está presente em boa parte das denúncias.

“As mulheres não estão satisfeitas como o nascimento está sendo feito no Brasil. Os médicos precisam pensar em como mudar a realidade e precisam estar envolvidos nessa discussão”, disse a procuradora Ana Carolina Previtalli Nascimento. Para ela, mesmo as mulheres esclarecidas não sabem o que é a episiotomia e precisam ser informadas sobre os riscos e benefícios de qualquer procedimento antes, durante e após o parto.

Lima explica que as gestantes de baixo risco são atendidas na casa de parto normal do Sofia Feldman e que só são removidas para a maternidade se desejam anestesia ou caso haja algum tipo de complicação, quando passam a ser atendidas por obstetras. O diretor clínico diz ainda que a violência obstétrica deixa de existir se as  mulheres estão sempre acompanhadas de sua família durante o período que estão no hospital. “Não deveria nem ter lei para isso. Basta ver os resultados e os benefícios que traz a mulher estar acompanhada”, diz.

A maternidade de Belo Horizonte é filantrópica e atente pacientes apenas pelo SUS (Sistema Único de Saúde). O hospital, que é referência no país em parto humanizado, também recebe gestantes de alto risco e, por esse motivo, as taxas de cesáreas chegam a 25%, índice considerado baixo já que nas maternidades particulares do país a taxa é de 90% e, do SUS, de 52%. A unidade faz cerca de 940 partos por mês e é a com maior número de partos do país.

Mulher usa banheira durante parto em hospital público (Foto: Divulgação)
Mulher usa banheira durante parto em hospital público (Foto: Divulgação)

A médica Melania Amorim, que há 12 anos não faz episiotomias, também esteve presente na audiência pública e disse que trabalha “pelo fim do corte mutilador”. “Nas escolas de medicina ensinam que a episiotomia é para manter a integridade do assoalho pélvico. Como vai manter se vão cortar?”, questiona.

Segundo ela, o vai e vem da cabeça do bebê durante o trabalho de parto preserva a musculatura perineal. “É nesse momento que o médico pega o bisturi ou a tesoura e corta. Acham que o corte vai fazer bem. A episiotomia não traz benefício algum”, diz. A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda uma taxa de apenas 10% de episiotomia. No Brasil, segundo a pesquisa Nascer no Brasil, da Fiocruz, 54% das mulheres são submetidas ao corte nos partos. No caso de primíparas (primeiro filho), o índice chega a 74%.

Segundo ela, a episiotomia configura violência obstétrica pois o médico só pode fazer sem o consentimento da paciente se existir risco iminente de morte o que, explica a médica, não é o caso. “Aprendi na residência que cortar durante a contração não sente o corte, o que é mentira. Por isso muitos médicos cortam e suturam sem nem dar anestesia”, diz.

A médica Simone Diniz disse durante a audiência que, infelizmente, o parto normal é visto como algo nojento, que provoca a frouxidão da vagina. “Nos hospitais-escola a vagina da mulher pobre está lá para o aluno aprender a cortar e suturar. A mulher precisa sair do parto com integridade corporal”, relata. Para ela, a mulher parir deitada impossibilita ainda mais que o parto seja feito da forma mais natural possível e que não adianta querer apressar o período expulsivo.

Segundo ela, muitas mulheres acham que a episiotomia está presente em todo parto. “Já ouvi paciente dizer que se vai cortar por cima ou por baixo, prefere em cima pois embaixo é uma área mais nobre”, diz Simone. Para ela, é preciso ter educação perinatal, com exercícios perineais, plano de parto e acabar com manobra de Kristeller (pressionar a barriga da gestante para o bebê descer), por exemplo, que é associado a dano perineal.

“Se não haver regulação da taxa de episiotomia, nada vai mudar”, relata. Segundo ela, por ser uma cirurgia, deve estar no prontuário médico, o que nem sempre ocorre.

A médica Rossanna Pulcinelli Francisco, representante da Sogesp (Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de SP), foi a única presente que defendeu o uso da episiotomia em casos específicos. “Nenhum médico foi formado para fazer o mal. Tema violência obstétrica incomoda pois pressupõe a intenção de ser violento. Na episiotomia não acredito na intenção de ser violento”, relatou.

Segundo ela, a gestante deve saber se não tiver uma episiotomia que poderá ter lacerações. “Estudos mostram que 50% a 60% tem períneo integro, mas também poderá ter laceração e a mulher precisa saber. O consentimento precisa ser livre e esclarecido. As pessoas precisam ter todos os esclarecimentos”, diz.

DEPOIMENTOS DE MÃES QUE TIVERAM EPISIOTOMIA

Durante a audiência, duas mães deram depoimentos emocionados sobre as episiotomias sofridas nos nascimentos dos filhos. A doula Laura Alonso, teve sua filha Mariane há um ano em um hospital particular do ABC. Além de ter sido negado o acompanhamento do marido, a filha ficou sete horas no berçário afastada da mãe após todo o sofrimento e dor no parto.

“Fiquei deitada, nua, com as pernas amarrada em posição ginecológica cercada por 14 enfermeiras e dois médicos. Pedi para não me cortar e o médico plantonista me cortou . Senti minha vagina rasgando. Sem anestesia, sem consentimento. Pedi que parasse, mas não fui ouvida. Fui cortada e suturada sem anestesia”, diz Laura, que tem uma cicatriz de sete centímetros e até hoje tem dificuldades para ter relações sexuais.

Marina Dias também relatou o seu sofrimento em um hospital-escola de São Paulo. “Fui tratada como uma cobaia. No parto da minha primeira filha tinha dois residentes. O médico deu uma tesoura para cada um e falou ‘você corta desse lado e você desse’. Eles tinham que aprender como costurar”, diz Marina, que levou oito pontos do lado direito e cinco do lado esquero.

“Hoje em dia tem tanta tecnologia, não ´é possível que eles tenham que usar o ser humano como cobaia. Fiquei dois anos sem conseguir ir direito ao banheiro e ainda sinto a marca da cicatriz”, lamenta.

Ao ouvir o depoimento das duas mães, a procuradora disse ainda que “mulher não é objeto e precisa ser respeitada”. “Há dispositivo no Código Penal que prevê crime de constrangimento ilegal. A episiotomia de forma abusiva não é só infração  ética. É crime e deve se denunciada, além da questão da lesão corporal que é indiscutível”, ressalta.