Irmãs lutam para melhor atendimento em hospitais após perda gestacional

Por Giovanna Balogh

Toda mãe vai para a maternidade certa de que vai sair de lá com o seu bebê no colo. E quando isso não ocorre? O luto para quem perdeu um bebê seja no início ou no final da gravidez é muito difícil até porque a sociedade não está preparada para lidar com isso.

Quem já perdeu um bebê diz que é muito difícil ouvir frases como “logo você engravida de novo” ou “não sofre, ele nem tinha nascido ainda”. Mães que já perderam seus filhos dizem que esse tipo de ‘apoio’ não dá nenhum conforto pois um filho jamais vai substituir o outro e sim, dói perder um bebê independente se ele estava há poucas ou muitas semanas na sua barriga.

A psicóloga Larissa Rocha Lupi, 31, acompanhou de perto a perda do segundo filho de sua irmã gêmea, Clarissa. Em fevereiro deste ano, aos três meses de gestação, ela teve um aborto espontâneo e enfrentou um grande sofrimento. Além da dor por nunca poder segurar o filho no colo, Clarissa enfrentou muitas dificuldades na maternidade particular no Rio de Janeiro onde passou por uma curetagem.

Larissa conta que na maternidade Perinatal não há uma separação entre as mulheres que ganharam bebês das que perderam seus filhos, ou seja, gestantes felizes ficam lado a lado com aquelas que estão no maior momento de dor das suas vidas. “Após o procedimento ela ficou em um quarto onde tinha uma plaquinha com uma cegonha sorridente na porta. O quarto era ao lado do berçário e o tempo todo ouvíamos o choro dos recém-nascidos. Isso só aumentava a dor dela”, lamenta Larissa.

Segundo ela, o rapaz que transportou Clarissa do centro cirúrgico até o quarto deu parabéns e fez perguntas sobre o bebê. “Ela chorou muito e esse despreparo do hospital para lidar com o luto foi ainda mais difícil”, diz Larissa, que é mãe de Tomas, 1.

Em abril, Larissa conta que também engravidou do segundo filho, mas preferiu não falar logo para a irmã pois ela ainda sofria muito com a sua perda. “Torcia para que ela engravidasse logo de novo e eu pudesse contar a minha novidade quando ela contasse a dela”, diz. A psicóloga lembra que pouco tempo depois a irmã ligou emocionada para dizer que, assim como ela, estava grávida de novo. “Comemoramos muito. Foi uma emoção dobrada pois nossos bebês teriam poucos dias de diferença”, diz.

Larissa com o filho Tomas no sling ao lado da irmã gêmea e o sobrinho (Foto: Arquivo pessoal)
Larissa com o filho Tomas no sling ao lado da irmã gêmea e o sobrinho (Foto: Arquivo pessoal)

Um sangramento em agosto,  quando estava de 19 semanas, no entanto, interrompeu esse sonho das irmãs gêmeas. A caminho do hospital, Larissa diz que sentia que seu bebê já estava morto e que passaria pelo mesmo sofrimento da irmã. “Revivi tudo o que ela passou no mesmo hospital. Cegonha na porta do quarto, bebês chorando enquanto eu chorava pela perda do meu filho. O rapaz da maca dando parabéns”, diz Larissa.

A psicóloga comenta que após ter perdido seu bebê, Clarissa disse que nunca mais pisaria naquela maternidade. “Não sei de onde ela tirou forças para me acompanhar. Ainda mais estando grávida”, diz.

As duas contam que não desejam que outras mulheres passem pelo mesmo sofrimento e chamam à atenção de médicos e diretores dos hospitais sobre a necessidade de ter alas separadas para esses casos. “Além de um setor à parte, essas mulheres deveriam ser identificadas por pulseiras de uma cor diferente para evitar gafes de perguntarem como está o bebê ou virem parabenizar por um bebê que não nasceu. Tudo isso só aumenta a dor”, comenta a psicóloga.

Larissa e o seu marido decidiram criar uma petição para pedir que as maternidades adotem essas mudanças para poder minimizar um pouco a dor dessas mulheres. Larissa conta que pretende criar um grupo presencial para que as mulheres que perderam seus bebês possam dividir a sua dor. Por enquanto, ela reúne as informações em um grupo no Facebook chamado “Do Luto à Luta: Apoio à Perda Gestacional”. Algumas maternidades contam com alas separadas para os bebês que nascem bem e aqueles que vão para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva), mas nem sempre essa é uma regra.

Nesta segunda-feira (3), Larissa esteve reunida com a direção do hospital para tratar sobre essa questão e ela diz que a maternidade pareceu interessada em escutar as suas sugestões.

Procurada, a maternidade diz que lamenta qualquer constrangimento que possam ter passado as pacientes. Segundo a Perinatal, os funcionários da maternidade passam por treinamentos constantes para melhor o atendimento ao pacientes.

“A maternidade Perinatal já possui uma metodologia de atendimento diferenciada para estas pacientes e procura, sempre que possível, alocá-las em alas destinadas à ginecologia”, diz nota enviada pela maternidade.

O hospital diz que vai avaliar as sugestões apresentadas e que tem o costume de ouvir os pacientes para aprimorar ainda mais o atendimento prestado.