Brasileira, embaixatriz da Costa Rica na OMC relata como foi seu parto normal no Japão

Por FABIANA FUTEMA
Tauli deu à luz Aiko em 2013 no Japão em parto normal (Foto: Arquivo Pessoal)
Tauli deu à luz Aiko em 2013 no Japão em parto normal (Foto: Arquivo Pessoal)

A brasileira Tauli Furuiti viveu 3 anos no Japão. Casada com o ex-embaixador da Costa Rica no país, ela engravidou e teve sua filha como a maioria das japonesas: em um parto natural.

O Japão tem uma das mais baixas taxas de cesáreas do mundo: 17%. Para efeito de comparação, esse índice salta para mais de 50% no Brasil. A OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda que as cesáreas não ultrapassem 15% do total de partos.

O modelo de assistência à gestante no Japão também é bem diferente do brasileiro. Em vez de ter o ‘seu obstetra’, a grávida é atendida por uma equipe do local em que terá seu filho.

Outra diferença é que as enfermeiras têm papel fundamental durante o todo o trabalho de parto e pós-parto. Os médicos só entram na sala quando o parto já está encaminhado. Leia especial da imigração Brasil-Japão.

O parto de Tauli aconteceu em 2013. Hoje, ela mora em Genebra, onde seu marido atua como embaixador da Costa Rica na OMC (Organização Mundial do Comércio).

Leia abaixo o relato de Tauli:

“Quanto mais eu penso, falo e me lembro da minha experiência no Japão, mais eu gostaria de ainda morar lá para saber que quando tiver outro filho receberei o mesmo tratamento.

Meu pré-natal foi ótimo. Super relax. Tive um médico que atendia a maioria dos expatriados até a 30ª semana mais ou menos. Depois, mudei para o hospital que eu tinha escolhido, que era o da Cruz Vermelha, que oferecia a possibilidade de um parto na água. Não são todos que têm, esse recurso é mais encontrado nas casas de parto. Mas pela localização, terminei na Cruz Vermelha. E este médico não atendia o tal hospital. E na verdade, eu não super amava ele. Justamente por trabalhar com muitos expatriados, a taxa de cesárea dele era bem maior que a média japonesa. Então o hospital que eu escolhi unia o “útil ao agradável”.

PRÉ-NATAL

Não fiz o pré-natal todo no hospital porque eu já ia neste outro médico e ele falava inglês muito bem, o que facilitava para mim. 

Desde o começo da gravidez, quando avisei o médico da minha escolha hospitalar, ele escreveu uma carta de referência para o hospital. Com a carta em mãos, eu fiz o contato com o hospital e “reservei” meu lugar. É meio louco porque mesmo sem saber exatamente a data do parto, você tem que reservar com muita antecedência, antes da 20ª semana mais ou menos. Há muita procura…

O hospital da Cruz Vermelha me admitiu num sistema que eles chamam de meio-aberto, já que metade da gravidez quem me acompanhou foi outro médico, de fora.

A partir do momento que passei para o hospital e levei todos os exames,  informações feitas pelo meu médico anterior, não tive mais contato com ele. 

Neste hospital, eu tinha consultas a cada duas semanas, e depois da 38ª semana era semanal. As consultas são marcadas, mas não com um médico determinado. Você não sabe quem vai te atender até o momento em que entra na sala e vê a pessoa. Penso no sistema no Brasil e é justamente o oposto, onde as pessoas estão super “apegadas” a uma pessoa. Enfim, em todas as vezes eu encontrei um (ou uma) obstetra que falava inglês o suficiente para me entender e me explicar tudo. E TODA a minha informação, tudo o que eu perguntavam ou que me diziam estava num relatório no computador. E isso me fazia sentir como se aquela pessoa me conhecesse e estivesse presente nas consultas anteriores. Nunca fui atendida pela mesma pessoa nas consultas que antecederam o parto.

Antes de ver o médico, você se pesa, colhe urina e pressão (tudo sozinha) e deixa todas as informações numa janelinha para as enfermeiras recolherem. Durante as consulta faziam um ultrassom, mediam tudo.

Depois você é chamada para conversar com uma parteira. E essa consulta geralmente durava mais que a anterior, com o médico. São elas que ajudam, explicam, dão dicas. Por exemplo, no final da gravidez, quando a obstetra recomendou fazer nipple stimulation (estimulação da mama), foi a parteira que me ensinou. Pegou meu mamilo e “ordenhou”. Pior é que eu não conseguia fazer. Então ela me ensinou pegando as minhas mãos com as mãos dela. BE-A-BÁ total. Sempre sinto um carinho imenso quando penso nelas. 

A cada consulta, as parteiras me davam um papel com uma “lição de casa” para a próxima semana. Era lição de escrever mesmo. Era um processo para a criação de um plano de parto, para trabalhar minhas expectativas, medos, etc. A partir do momento que levei meu plano de parto finalizado, em todas as consultas o médico sempre abria minha pasta com uma cópia dele e eu via que o mesmo plano de parto também havia sido adicionado ao meu arquivo online, ou seja, estava tudo no computador.

Ao fazer a opção pelo hospital japonês (e abrir mão do médico de expats) eu estava também escolhendo um parto natural, sem anestesia, já que a anestesia epidural no Japão é usada basicamente só para cesáreas. As mães ocidentais com quem eu conversava achavam que eu estava louca. Na minha cabeça, o raciocínio foi de que se todas as japonesas (além de milhões de outras mulheres no mundo todo) podem, eu também poderia, de que meu corpo foi feito para isso. E que se eu tivesse a possibilidade de usar alguma anestesia, nunca conheceria meu limite, porque qualquer dor deveria ser maior do que a maior dor que eu já tivesse sentido. E assim seria sucessivamente. E provavelmente eu desistiria de tentar logo no começo, ao sinal da primeira “grande” dor. E hoje faria a mesma opção novamente. Nosso corpo é muito sábio. Eu só tenho flashes daquele dia, do processo todo. Acho também que tem uma grande diferença entre sentir dor e sofrer. 

PARTO

Enfim, foi assim até o dia do parto. Dei entrada no hospital umas 4h. E neste horário só tinham parteiras, os médicos entravam mais tarde. Minha filha nasceu quase às 10h e só às 9h que chamaram a médica. Só para o expulsivo mesmo. Até então, ficávamos sozinhos e vira e mexe aparecia uma parteira, media coisas, falava (mais com o meu marido) e saía.

Talvez nas últimas duas horas, até o expulsivo, elas tenham ficado o tempo todo lá. Foi quando uma delas viu que já era hora de a minha filha nascer. Aí uma delas chamou usou um walkie-talkie e um time entrou em ação. A médica, mais uma ou duas parteiras e duas estudantes que tinham pedido permissão para estar presentes. Se você me perguntar a cara da médica que fez o parto, eu não sei. Se colocar duas fotos na minha frente, eu tenho que chutar. Meu marido sabe, e até pegou um folheto no hospital com a cara dela para eu ver porque eu realmente não me lembrava. 

Tinha pedido para que meu bebê (não sabíamos o sexo) fosse colocado no meu peito depois de nascer. E ela ficou comigo umas duas horas. Ela mamou, e ficamos lá juntinhas. Limparam todo o quarto e quando já não “tinham mais o que fazer”, pediram para pesá-la e medi-la, ali do meu lado. Eles não dão banho nas primeiras 24 horas. Ela não saiu do meu lado até hoooooras depois, quando levaram para fazer algum exame, mas já era quase final da tarde. Ficamos nós três no quarto. 

No Japão é normal as mulheres ficarem uns 6-7 dias no hospital (para parto normal ou uns 7-10 para cesárea). Neste período, umas midwives [obsterizes] te ajudam com todas as suas dúvidas, te ensinando tudo. Com a amamentação, com a pegada do bebê no seio, com TUDO. É realmente muito bom. Eu pedi para sair depois de 4 dias. Meu seguro não pagava mais e eu já estava cansada, porque como não eram todas as enfermeiras que falavam inglês, a minha “amiga” me dava uns intensivões, então eu sentia que estava bem para ir para casa. 

Foi tudo perfeito. Só não consegui meu parto na água porque eu tive febre e os batimentos da Aiko não baixavam no final, estavam constantemente muito altos. Mas quando me avisaram disso, confesso que eu estava mais é querendo terminar com tudo aquilo do que levantar e entrar numa banheira.”