Grávida tem parto em casa após hospital deixar de atender Unimed

Por FABIANA FUTEMA
Amanda e o marido logo após o parto domiciliar (Arquivo Pessoal)
Amanda e o marido logo após o parto domiciliar (Arquivo Pessoal)

A designer gráfica Amanda Dafoe, 32, planejava um parto humanizado hospitalar. Cliente da Unimed Paulistana, ela havia se programado ter sua bebê acompanhada da equipe do Parto Sem Medo, no hospital São Luiz, na zona sul de São Paulo.

Ela só não esperava que bem no fim de sua gestação a Unimed passaria por uma intervenção. Com problemas econômicos e administrativos, a empresa terá de repassar sua carteira de quase 750 mil clientes para outra operadora por determinação da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar).

A partir do dia 2 de setembro vários hospitais e laboratórios suspenderam o atendimento aos clientes da Unimed Paulistana. Inclusive o São Luiz. O plano B de Amanda era parir então na Pro Matre. Só que a maternidade também suspendeu o atendimento aos clientes da Unimed.

Amanda foi procurar orientação na operadora, que a aconselhou a realizar seu parto no hospital Santa Helena, na região central de São Paulo.

O problema é que o Santa Helena, pertencente à rede própria da Unimed, não conta com a mesma estrutura física do São Luiz e Pro Matre para parto humanizado hospitalar. Para piorar, a internação no Santa Helena é em quarto coletivo, apesar de o plano escolhido por Amanda dar direito a um individual.

Com tanta apreensão no final de sua gestação, tudo o que Amanda não queria era fazer uma cesárea.  Na tarde do dia 6 de setembro, quatro após a falência da Unimed, a bolsa rompeu. “Como eu estava com a bolsa rota, tinha quase certeza que isso seria usado como motivo para realizarem uma cirurgia em mim.”

Para manter seu plano de parto humanizado, Amanda pensou até em parir na casa de parto Sapopemba, na zona leste da cidade. O problema é que para ter sua bebê lá teria de fazer mais uma série de exames. E ainda havia a distância, pois ela mora na Santa Cecília.

Foi aí então que ela começou a pensar na possibilidade de ter um parto domiciliar. A designer ligou para sua médica da equipe Parto Sem Medo, que indicou uma parteira conhecida. Ela entrou em contato com a parteira, que passou uma lista de materiais para comprar.

“Era um domingo, havia parentes e amigos em casa. Todos ajudaram na procura por esses materiais”, diz ela.

Na noite do dia 6 Amanda entrou em trabalho de parto, e sua filha, Ana, nasceu na manhã do feriado de 7 de Setembro.  “Foi intenso, tenso e ao mesmo tempo maravilhoso”, conta ela sobre seu parto.

Amanda não sentiu falta de uma banheira para ter seu parto humanizado. “Eu até queria ter na água. Mas na hora o que eu precisava era andar, me movimentar, entrar e sair do chuveiro, explorar posições pela casa.”

Passada toda essa chateação com o parto, Amanda ainda enfrenta a questão do atendimento pediátrico. Para atender sua bebê, ela conseguiu um pediatra particular. Mas a menina ainda não realizou alguns exames, como o do pezinho. “São todos muito caros.”

A designer planeja ainda entrar com uma ação contra a Unimed Paulistana pela falta de assistência à sua gestação. E a partir de outubro ela passa a ser atendida por outra operadora.

OUTRO LADO

Em nota, a Unimed Paulistana informa que o Santa Helena realiza, em média, 350 partos por mês. “A instituição oferece alojamento conjunto, ambulatório de gestação de alto Risco, curso preparatório para as gestantes e está construindo uma área destinada ao parto humanizado”.

Segundo a operadora, o hospital foi uma das 42 instituições selecionados para participar do programa piloto do Ministério da Saúde “Parto Adequado”, de incentivo ao parto natural. “O objetivo é incentivar o parto normal e reduzir a ocorrência de cesarianas desnecessárias, tanto na saúde suplementar como no sistema público”, informa a nota.

Diz ainda que deu todas as informações sobre atendimento para Amanda. “A paciente realizou consultas e exames normalmente na rede Unimed Paulistana e, em nenhum momento, teve algum atendimento negado por parte da instituição.”

A pequena Ana, que nasceu no dia 7 de Setembro (Arquivo Pessoal)
A pequena Ana, que nasceu no dia 7 de Setembro (Arquivo Pessoal)

Leia abaixo o relato de Amanda:

Grávida de 38 semanas, minha bolsa rompeu no domingo, dia 6 de setembro, quatro dias após o anúncio da alienação compulsória da Unimed Paulistana, e eu me vi numa situação muito delicada.

Logo que comecei o pré-natal, decidi que queria parto humanizado, e contratei uma equipe do projeto  Parto Sem Medo para me acompanhar.

Eu tinha um plano Ouro da Unimed que me dava direito a realizar o parto no São Luiz, que era onde eu queria por conta da estrutura já mais preparada para partos humanizados, mas em último caso eu também poderia fazer o parto na Pro Matre, que não era minha favorita por ser mais rigorosa com vários protocolos, mas que ainda era OK, principalmente porque eu estaria com uma equipe completa de médica obstetra, doula e obstetriz me acompanhando, o que faz com que haja um pouco mais de controle na forma como você quer seu parto conduzido. 

No dia 28 de agosto liguei para a Unimed e para meu desgosto fiquei sabendo que o São Luiz havia suspendido o atendimento ao plano. Isso me deixou bastante frustrada, mas me conformei com a ideia de usar a Pro Matre, que, segundo o atendente, não seria cortada do plano.

No dia que fiquei sabendo da falência do plano (2 de setembro), imediatamente liguei para a Pro Matre para saber como ficaria meu atendimento e eles me responderam de pronto que a partir daquele dia não atenderiam Unimed Paulistana. Aí bateu o desespero: só sobrava o Hospital Santa Helena, da  própria Unimed, que de humanizado não tem nada. 

Meu marido e eu começamos a pensar em possíveis alternativas, e teríamos que agir rápido já, que a pequena poderia chegar a qualquer momento. 

Fomos até a casa de parto Sapopemba. Gostamos bastante do lugar, mas para eu poder dar entrada lá quando chegasse a hora, eu precisaria realizar mais um lote de exames.

Eu então estava me planejando para fazer esses exames na semana seguinte, só que Ana não esperou e a bolsa rompeu na tarde do dia 6 de setembro, 4 dias depois da falência do plano.

No desespero, liguei para a minha obstetra e avisei que a ÚNICA possibilidade de atendimento da rede era o hospital Santa Helena, e, para piorar o que já estava muito ruim, ela disse que não realizava parto lá!

Com isso, o último fio de possibilidade de utilizar meu plano escorreu por água abaixo, junto com meu líquido amniótico…

Felizmente, por algum instinto louco, meu marido, eu e minha mãe começamos a conversar sobre a possibilidade de fazer o parto em casa um dia antes da bolsa romper… pois, já que estávamos cogitando a casa de parto Sapopemba, que não tem infra de hospital, e que exigiria uma transferência caso algo desse errado, não faria tanta diferença fazer em casa com a equipe, sabendo que moro em frente à Santa Casa, e a transferência não seria difícil.

Falei então com minha obstetra sobre essa possibilidade, e tive mais uma surpresa: essa equipe que contratei só faz parto humanizado em hospital. Mais uma porta que se fechou. E na verdade nem era culpa deles, pois meu plano todo era de fato fazer o parto em hospital com eles, então nunca nem havia tocado nesse assunto.

Pedi então para minha obstetra por favor me ajudar a ver se era possivel montar uma equipe de parto domiciliar, pois eu não queria ter que ir para o Santa Helena desassistida, e acabar passando por uma cesárea desnecessária (a probabilidade disso acontecer era grande, já que eu estava de bolsa rota).

Por um verdadeiro milagre, minha obstetra conseguiu me colocar em contato com uma parteira super experiente, que topou a empreitada de última hora (ela estava de mala pronta para ir para a praia!). Minha médica passou para ela todo o meu histórico, deixando claro que minha gravidez era de baixo risco. E meu marido e eu engolimos a seco e encaramos que era isso aí: vamos nessa. 

Por sorte tudo correu muito bem. A parteira era sensacional e Ana nasceu super saudável às 9h45 da manhã do feriado de 7 de Setembro, depois de uma exaustiva noite de trabalho de parto. A experiência foi linda e gratificante, sem dúvida.  Porém não dá para deixar de lado o total descaso que tive que enfrentar por parte da Unimed, e o estresse que foi ter que tomar uma decisão dessa magnitude assim, de sopetão. 

Estou pensando seriamente em montar um processo contra a Unimed agora. Devo marcar com um advogado semana que vem para avaliar como isso funcionaria. Espero muito que nenhuma outra gestante tenha passado por essa tensão, num momento em que isso é a ultima coisa que precisamos.