Bebê deve comer junto da família; veja erros e acertos da introdução alimentar

Por FABIANA FUTEMA
Especialistas defendem o uso do cadeirão na hora da alimentação infantil (Leitora/Vanessa Lima)
Especialistas defendem o uso do cadeirão na hora da alimentação infantil (Leitora/Vanessa Lima)

O bebê nem completou seis meses e os pais já começam a se preocupar com a introdução alimentar. Como fazer? Que alimentos oferecer? Em quais horários?  Devo seguir qual método? Já dá para tirar fotinho da criança fazendo careta ao experimentar suquinho de laranja?

A lista de dúvidas é imensa e varia de família para família. Nessa hora, os pais devem tomar cuidado para não cometer o erro mais comum da introdução alimentar, que é fazer o bebê comer em horário diferente do restante da família. A criança não deve comer antes ou depois, mas junto do pai, mãe e irmãos.

“A refeição é aprendida, é um ato comportamental. O bebê aprende o que é almoço e o que é janta com a experiência em família”, diz Priscila Maximino, do Centro de Dificuldades Alimentares do Hospital Infantil Sabará.

Ary Lopes Cardoso, chefe de Nutrologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da USP, diz que comer não é só engolir. “Comer é participar do ambiente em que está a família.”

Outro erro comum é preparar pratos especialmente para o bebê. Os especialistas dizem que a criança deve comer os mesmos alimentos da família, desde que saudáveis.

“Tem que ser a comida gostosa da casa onde a criança mora. Não adianta preconizar comida cara para quem não pode comprar”, diz Ary Lopes Cardoso.

Para a educadora Fabiolla Duarte, o modelo de comida da família costuma funcionar nessa fase de introdução alimentar. “Quando todos da família comem uma comida saudável. Mas é muito comum famílias que cuidam apenas da alimentação do bebê, enquanto o restante come mal, alimentos pobres em nutrição.”

Em sua experiência pessoal, Fabiolla Duarte liberou a comida da casa para o filho. “Era lindo comermos do mesmo alimento. Muitas famílias fazem isso e dá muito certo. […]  Do ponto de vista do simbólico infantil, faz muito sentido comer o mesmo alimento.”

Mas como o bebê vai comer a mesma comida da família se ainda não tem dente? Priscila Maximino, do Centro de Dificuldades Alimentares do Hospital Infantil Sabará, diz que o que muda é a consistência. “Tem que ser em uma consistência modificada, mas sem bater no liquidificador nem passar tudo na peneira.”

O ideal, segundo ela, é amassar no garfo, deixando pequenos pedaços para serem mastigados.  “A mastigação tem que ser incentivada.”

Já Ary Lopes Cardoso diz que os pais podem até oferecer até pequenos pedaços de carne para o bebê chupar. “Bebê adora chupar osso. Tutano é ótimo para eles. Um ossobuco com polenta é o que eles mais gostam. Rabada também tem uma carne molinha.”

Os pais devem amassar os alimentos separadamente, segundo ele, em vez de juntar tudo em uma mesma mistura uniforme. “Ajuda o bebê a ter a percepção do que está comendo e desenvolve o paladar.”

QUANDO COMEÇAR

O início da introdução alimentar é o principal ponto de divergência entre os especialistas,

Para Fabiolla Duarte,  não existe um calendário que indica a data de início, mas sim a prontidão do bebê para comer alimentos.

“Ela deve acontecer a partir da iniciativa do bebê, e não dos pais ou cuidadores. Não sei quando um bebê vai comer. Isso vai acontecer quando ele estiver pronto para ir até o alimento, para mastigar, engolir e digerir e quando o sistema cognitivo tiver formatado, no campo do simbólico e emocional, a autonomia desse bebê”, diz Fabiolla.

Priscila Maximino diz que o marco dos seis meses, defendido pela maioria dos pediatras, coincide com o início da fase de sentar do bebê, quando o tronco fica mais ereto e ele começa desenvolver a deglutição.

Para Ary Lopes Cardoso, o início varia de criança para criança. “Não pode ser muito antes dos 4 meses nem muito depois dos 7 meses.”

Fabiolla admite que aguardar que o bebê esteja apto para se alimentar pode parecer muito vago para os pais que buscam fórmulas ou passo-a-passo. “Mas é incrivelmente rico para quem investe numa criação com conexão para seus filhos.”

Para que a introdução aconteça, segundo ela, “todo sistema digestivo precisa estar pronto para dar conta do alimento, inclusive a mastigação”.

“Comer a partir da prontidão é começar uma relação com a comida de rica experiência e não apenas um alimento a preencher um pequeno estômago.”

Criadora do Colher de Pau, que ensina famílias a lidarem com introdução alimentar, Fabiolla diz verificar uma idade média para a aptidão do ebê para a alimentação. “A média de prontidão para comer é de 8 meses, alguns antes, outros depois. Mas a maior parte é com 8 meses, mais ou menos. Isso coincide com dados históricos também.”

O QUE OFERECER

Sabendo disso tudo, o que você vai dar para seu bebê comer? Primeiramente, não se esqueça que ele deve ser alimentado exclusivamente com leite materno até os seis meses.

O início, segundo Priscila, deve ser feito com frutas. Depois, no segundo mês de introdução alimentar, os pais podem oferecer alimentos salgados. No começo, o bebê só almoçará _as demais refeições serão compostas de frutas e leite. No terceiro mês de introdução, ele passará a jantar.

Ela sugere que os pratos tenham duas cores de vegetais e uma fonte de carboidrato, como batata ou arroz. “O bebê deve experimentar texturas e sabores diferentes.”

Lopes Cardoso diz que os pratos podem ter todo tipo de tempero natural, como alho, cebola e ervas. “O prato precisa ser colorido e saboroso. Só tome cuidado com o excesso de sal.”

A partir de 1 ano e meio, segundo Priscila, a criança está pronta para comer a mesma comida da família, ou seja, sem precisar mudar a consistência.

E a criança pode comer sozinha a partir de quando? “Desde sempre. Mas com seis meses ela ainda não tem o movimento de pinça para segurar um talher. Ela começa a afinar esse movimento a partir dos nove meses. Mesmo fazendo sujeira, é bom deixar a criança treinar”, afirma Priscila.

E aí, pronto para dar início à fase de introdução alimentar de seu filho? Conte para o blog sua experiência no e-mail blogmaternar@gmail.com

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