Como seu bebê é acolhido após o nascimento? Veja procedimentos que podem melhorar essa recepção

Por FABIANA FUTEMA
Como seu bebê é recebido daqui do lado de fora? (Foto:  Lela Beltrão/Coletivo Buriti de Fotografia)
Como seu bebê é recebido daqui do lado de fora? (Foto: Lela Beltrão/Coletivo Buriti de Fotografia)

O bebê passa nove meses protegido dentro do útero da mãe. Mas será que ele tem essa mesma sensação de segurança quando nasce? Em muitos lugares, o recém-nascido é afastado da mãe logo após o parto para fazer uma série de exames, além de ser medido, pesado e tomar banho. Depois, longe dos pais, ele recebe colírio de nitrato de prato nos olhos e uma injeção de vitamina K, tudo isso pouco tempo depois de conhecer um novo mundo.

Para a neonatalogista Ana Paula Caldas Machado, o recém-nascido passa por muitos procedimentos desatualizados e desnecessários, que causam desconforto.

Para que a recepção seja acolhedora, diz Ana Paula, o principal é que a criança fique em contato pele a pele com a mãe na primeira hora de vida. Além de fortalecer o vínculo, esse contato também estimula a amamentação.

“O cordão umbilical não deve ser cortado antes de parar de pulsar. O ideal é que o bebê fique o tempo todo com a mãe, só saia de perto em uma situação de emergência. Todos os procedimentos, como pesar e medir, podem ser feitos na sala de parto, na presença da mãe”, afirma ela.

Ela participará do 3° Siaparto (Simpósio Internacional de Assistência ao Parto), que acontece de 1 a 4 de junho em São Paulo.

Entre os procedimentos que ela considera desatualizados está o de pingar o colírio de nitrato de prata no recém-nascido.  Indicado para evitar a conjuntivite provocada pela bactéria da gonorreia, ele também pode causar uma irritação chamada de conjuntivite química.

“O colírio existe faz mais de 110 anos, quando a gente tinha uma incidência alta de gonorreia e não existia antibiótico. Hoje não tem razão para utilizar, a prevalência do gonococo é baixa, é uma doença tratável e colírio só previne contra o gonococo.  É uma prática desatualizada”, afirma Ana Paula.

Mas como sua utilização é recomendada pelo Ministério da Saúde, os pais que não querem aplicar o colírio no bebê devem assinar um termo de recusa informada no hospital onde ele nascer.

Outro sinal de desatualização, segundo ela, é que a doença seria transmitida durante o nascimento pela via vaginal. Mas o colírio é aplicado em todos os bebês, mesmo naqueles nascidos de cesárea.

Uma forma de saber se a mulher corre o risco de estar infectada é realizar exames ainda na gestação. “Só que isso não é uma rotina do pré-natal. Vejo hospitais em que aplicam colírio mesmo em bebês que não passaram pela vagina”, diz a neonatalogista.

Em nota, o Ministério da Saúde informa que  há casos em que a cesárea não é feita com a bolsa íntegra e por este motivo o procedimento ainda está em discussão entre especialistas.

Outro procedimento questionável é a injeção de vitamina K no recém-nascido. O Ministério da Saúde informa que ela deve ser feita de rotina para prevenir a doença hemorrágica, que ocorre pela falta de produção da vitamina K nos recém-nascidos e é potencialmente grave. A recomendação é que ela seja injetável, pois a aplicação oral pode não ter a absorção desejada, informa o ministério.

Para Ana Paula, essa é uma questão de ponto de vista. “A incidência pra doença é de 1 para 20 mil nascidos. Tem gente que acha que é muito, outros que é pouco. É uma questão do jeito de ver a vida mais que a doença em si.”

A aspiração do bebê deixou de ser rotina em 2011. Mas Ana Paula afirma que isso não significa que ela deixou de ser realizada. “A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que não se faça aspiração, que o bebê fique em contato pele a pele. Mas a recomendação é diferente da prática. Mesmo treinando pediatras para fazer diferente, alguns continuam fazendo a mesma rotina de 50 anos atrás, separando o bebê da mãe, fazendo o corte precoce do cordão, aspiração. Não mudou nada.”

O primeiro banho, que muitos pais costumam filmar na maternidade, é outra prática que a neonatologista recomenda que seja adiada. “Se for para dar banho, que seja depois de 24 horas. Se nasceu muito sujinho, passa um pano molhado. Aquela camada branquinha, o vérnix, protege a pele do bebê. Eu recomendo dar o banho em casa, não no hospital.”

Segundo ela, além de ser manipulado de forma excessiva no banho, o bebê perde temperatura. “Não é conveniente que a temperatura dele fique esquentando e depois esfriando.”

E o que os pais podem fazer para evitar que o recém-nascido passe por procedimentos que a família considera que são desnecessários? A recomendação é ter um pediatra da sua confiança na sala de parto.

Mas como a maioria nasce com a presença de um pediatra plantonista, Ana Paula sugere que a mãe faça um plano de parto bem detalhado, deixando claro quais procedimentos ela não quer que sejam realizados. “E contar com a sorte de ter um médico que atenda seu plano de parto, pois ele não é obrigado a respeitá-lo.”

O vídeo abaixo, que circula nas redes sociais, choca algumas pessoas que nunca viram um bebê tomar banho no hospital.