Depoimento: Como descompartilhei a cama após 4 anos

Por FABIANA FUTEMA
Lojas vendem espécies de ninho para o bebê dormir na cama dos pais; pediatras desaconselham esse método (Reprodução)
Lojas vendem espécies de ninho para o bebê dormir na cama dos pais; pediatras desaconselham esse método (Reprodução)

Meu filho fez  4 anos em janeiro. Faz quase um mês que ele dorme na própria cama. Até então, a cama era dividida entre ele, eu e meu marido.

O início da cama compartilhada não se deu pela minha simpatia à criação com apego, embora ela exista. Foi mais fruto da conveniência, confesso. Eu acordava às 6h para trabalhar e ele vivia doente, tomava muitos remédios de madrugada. Para dar conta da medicação e tentar descansar um pouco, trouxe-o para minha cama quando tinha seis meses.

Ele melhorou, mas acabou ficando na mesma cama, pois a vida era tão mais fácil. Seu sono era mais tranquilo, chorava menos e, consequentemente, eu descansava mais.

Comecei a pensar em tirá-lo da cama por volta dos 18 meses. Mas não tomei nenhuma iniciativa. Por volta dos 2 anos, transformei o bercinho em minicama. Mas ele não se interessava em dormir no próprio quarto.

Quando estava com 2 anos e meio comprei uma cama de solteiro, igual à do primo mais velho que ele admira tanto. Ele fazia a cama de pula-pula, mas nada de dormir nela.

Então comecei a deixá-lo dormir no sofá ou na minha cama e levava depois para o quarto dele. O sono durava uma hora, no máximo, e depois ele acordava revoltado, chorando muito. Demorava mais uma hora para se acalmar e voltar a dormir.

Cansada, desisti de novo de descompartilhar a cama. Com quase 4 voltei a fazer nova tentativa. Tirei uma cômoda do quarto, retirei umas bagunças e deixei o cômodo mais livre para ele brincar.

Ele dormia na sala, eu levava para o quarto, ele acordava de madrugada e vinha dormir comigo. Passou a chorar menos e se acalmar mais facilmente.

Ele dizia que não queria dormir sozinho em seu quarto, que a cama dele era a nossa. Sentia-me culpada, afinal fui eu que o acostumei a dormir na cama com os pais.

Mas a pediatra me deu força para insistir. Continuei levando-o dormindo para a sua cama. Percebi que passou a dormir a noite toda, sem acordar chorando.

E agora, de um mês para cá, passou a adormecer no próprio quarto. Ele ainda precisa da minha presença no quarto, pede que eu conte historinhas e depois dorme.

Sei que o descompartilhamento ainda não está completo. Mas sinto que estou no caminho certo. Ele não só gosta de dormir no próprio quarto, como disse não quando o pai perguntou outro dia se queria dormir na ‘camona ‘ com a gente _sabe quando as mães reclamam que os pais não têm noção?

Neste período ouvi muitas críticas à cama compartilhada. Algumas faziam com que eu me sentisse uma péssima mãe, pois ele não tinha aprendido a dormir sozinho. Ouvi também muitas mães confessarem que compartilhavam a cama  _algumas pareciam envergonhadas.

O que eu posso dizer? Não há motivo para vergonha. Muita gente compartilha e não admite. Outro tanto não compartilha e não existe nenhum problema nisso. Outra parcela compartilha e nem sabe: o filho acorda toda noite e vai para a cama dos pais. Cada um cria como acha melhor e ninguém tem nada a ver com sua escolha.

Da minha experiência posso dizer que compartilhar é melhor quando a criança é pequena. Elas crescem e a cama começa a ficar apertada. Ele começou a dar sinais de estar incomodado: acordava no meio da noite e ia para pé da cama.

Se eu demorei demais para tirá-lo da minha cama? Aconteceu quando achei que ele não ia sofrer com isso. Confesso que sinto falta dele na camona e ainda acordo várias vezes à noite para checar se está tudo bem no outro quarto. Sei que vou me acostumar, é um duplo aprendizado.

PALAVRA DO PEDIATRA

O presidente da presidente da Academia Brasileira de Pediatria, José Martins Filho, diz que bebês que ficam perto da mãe nos primeiros meses são mais calmos, dormem melhor, ficam mais tranquilos e choram menos.

“O problema da cama compartilhada são os possíveis riscos que podem estar associados, principalmente por conta da possibilidade de sufocamento do bebê. Nós contraindicamos a cama compartilhada em casos de pais obesos ou que tomam medicamentos para dormir, ou que sejam alcoolistas ou tenho algum tipo de vício em drogas ou mesmo para os que têm um sono agitado com roncos e muita movimentação na cama”, afirma.

Para ele, a cama compartilhada pode ser substituída por alojamento conjunto. “Com um pequeno berço no quarto ao lado da mãe, que pode atendê-lo ou amamentar, se necessário.”