Filhos só precisam ser sentidos por suas mães, diz escritora argentina Laura Gutman

Por FABIANA FUTEMA
A escritora Laura Gutman (Reprodução/Divulgação)
A escritora Laura Gutman (Reprodução/Divulgação)

O que uma mãe precisa fazer para criar bem uma criança? Para a escritora e terapeuta argentina Laura Gutman, as mães precisam apenas se conectar com os filhos, caminho que pode ser feito se acessarem sua própria infância.

“A única coisa que as crianças precisam é ser sentidas pelas mães. Só precisam que suas mães sintam a criança como se fossem elas mesmas”, disse Laura em entrevista por e-mail para o Maternar.

No livro “O Poder do Discurso Materno”, publicado pela Editora Ágora, Laura explica o funcionamento da construção da biografia humana, que leva o a um processo de autoconhecimento que permite às pessoas entrar em contato com experiências esquecidas no inconsciente.

Esse inconsciente é forjado na primeira infância, quando a criança precisa ser cuidada, apoiada e amparada. Mas em muitos casos, como a mãe não estava presente, a criança se sentiu sozinha e insegura. Para sobreviver e se sentir querida, ela criou personagens, como a da menina boazinha e estudiosa, que não dava trabalho para os pais.

Apesar de defender esse mergulho no inconsciente, Laura diz que isso não garantirá que a mulher se tornará uma mãe melhor para seus filhos.

“Não há garantias. Por que então uma viagem de investigação pessoal e abordar a realidade de nossas experiências passadas se não temos garantia de nad ? Porque estamos vivendo como cegos, e de olhos vendados, com certeza, vamos errar e fazer mal a quem amamos”, afirma ela.

No livro, Laura mostra que o mergulho no inconsciente pode ser duro e  dolorido, mas o potencial de crescimento que advém dele é capaz de transformar aqueles que têm coragem para enfrentar um processo de mudança de condicionamento iniciado na infância. “Emergem daí seres humanos mais completos e aptos a manter relações familiares e amorosas harmônicas”, diz a autora.

Famosa pelo best-seller “O Encontro com a Própria Sombra”, cuja tiragem em português está esgotada, Laura diz que a depressão pós-parto é uma questão complexa.  “Muitas vezes se diagnostica uma suposta depressão pós-parto, quando na verdade a mulher foi maltratada no parto e tem todo o direito de chorar”, afirma.

Acontece, segundo ela, que não está previsto no desenho original da fêmea humana que ela pode não se sentir suficientemente cuidada, mas que mesmo assim terá de que proteger uma criança. “Somos muito ignorantes sobre a realidade do ser humano. Creio que temos de começar por aqui: como descobrir o ser humano? Observando as crianças e dando-lhes razão. Mas como pode uma fazer isso? Só se todos ao seu redor cuidarem dela”, afirma.

CAMA COMPARTILHADA

Para a polêmica da cama compartilhada, Laura diz que os adultos precisam decidir se vão proteger a criança ou a si mesmos.

Tomando como referência o que ela chama de desenho do mamífero humano, a escritora afirma que o bebê precisa ser protegido pela mãe ou por todo o rebanho. “Caso contrário, se sente em perigo. Isso é comum em todas as espécies de mamíferos.”

A adoção do método, entretanto, depende das decisões dos adultos da casa, de como eles se relacionam, como amam e se distanciam.

A SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) condena a cama compartilhada, pois entende que o método amplia o risco de morte súbita dos bebês.