Ajudar pressupõe que a obrigação é da mulher, diz pai que ficou 40 dias em licença-paternidade

Por FABIANA FUTEMA
Fabio com as filhas Catarina, Liz e Maitê (Arquivo Pessoal)
Fabio com as filhas Catarina, Liz e Maitê (Arquivo Pessoal)

O gerente de perfumaria da Natura, Fabio Artoni, 35, acaba de voltar da licença-paternidade. Ele ficou 40 dias em casa após o nascimento de Liz, sua terceira filha.

Neste período, Fabio pode acompanhar de perto o desenvolvimento da menina, que completou 46 dias de vida nesta sexta.

“Foi extremamente gratificante passar esse tempo com ela. Tive a possibilidade de construir uma proximidade com minha filha desde o começo. Sinto que nessa fase, quando eles ainda são bebês, é preciso dedicar mais tempo a eles”, afirma Fabio.

Justamente por ficar tão perto da filha, desde o início, Fabio diz que sente que agora conhece Liz muito bem. “Sei quando o choro é de cólica ou fome ou quando é só manha.”

Mesmo antes de ter direito à licença-paternidade de 40 dias, Fabio tentou participar dos primeiros cuidados com as outras duas filhas. Quando Maitê nasceu, há 10 anos, ele emendou 15 dias das férias com a licença-paternidade. Com Catarina, de 5 anos, entretanto, não foi possível fazer isso, pois ela nasceu 30 dias antes do previsto. “Não deu para organizar minha saída. Mas tirei férias quando ela já tinha três meses.”

Além de fortalecer o vínculo afetivo com a caçula, Fábio diz que ficar em casa após a chegada da bebê contribuiu para normalizar a rotina da família. “Quando nasce alguém, a dinâmica da casa muda muito. Eram duas meninas, passaram a ser três. É preciso dar atenção a todas elas.”

Neste período de licença, Fábio afirma que lutou muito contra o estigma do marido que “está ajudando” a mulher.

“As pessoas vinham e perguntavam como estava sendo ajudar. Eu não estava ajudando, estava fazendo a minha parte”, afirma ele.

Para ele, a palavra ajudar pressupõe que a obrigação de cuidar da casa e dos filhos é só da mulher. “Não dá para achar que ajudar é suficiente. Isso pressupõe que o trabalho é todo da mulher e que você é dispensável.”

Fabio diz não são apenas os homens que precisam mudar de mentalidade em relação à participação masculina nas tarefas da casa.

“Os dois precisam evoluir, elas também. Ainda é difícil libertar os homens para cometer erros que as mulheres cometeram. Algumas preferem dizer: olha, é assim que se faz. É preciso deixar cada um encontrar o melhor jeito de fazer as coisas”, afirma.

Sobre a licença-paternidade ampliada, Fabio diz que conhece um homem que quis voltar ao trabalho com 20 dias.

“Ele queria voltar a se sentir produtivo, achou que 40 dias era tempo demais para ele. Pode ser que outros também se sintam assim”, afirma ele.

Para este domingo, quando se comemora o Dia dos Pais, Fabio quer ganhar um presente que o ajude a se lembrar de cuidar de si mesmo e também de momentos com a família. “O primeiro me ajuda a manter minha individualidade e o segundo me lembra porque existe o Dia dos Pais.”

A Natura implantou em junho a licença-paternidade de 40 dias para todos seus colaboradores. É o dobro do período estabelecido no novo Marco Legal da Primeira Infância. A iniciativa vale também para casais do mesmo sexo ou que tenham filhos adotados.

O Marco Legal da Primeira Infância, sancionado em março, amplia de cinco para 20 dias a licença paternidade para as companhias que fazem parte do Programa Empresa Cidadã _aquelas que concedem licença maternidade de seis meses.

Fabio com a mulher e a bebê (Arquivo Pessoal)
Fabio com a mulher e a bebê (Arquivo Pessoal)