Não deixe o bebê brincar com o celular; exposição precoce à tecnologia vai criar geração de alienados

Por FABIANA FUTEMA
Não deixe seu filho ter contato com o celular antes dos 2 anos (Foto: Fotolia)
Não deixe seu filho ter contato com o celular antes dos 2 anos (Foto: Fotolia)

Quantas vezes você ouviu um pai dizer orgulhoso que o filho, que mal saiu das fraldas, já sabe procurar sozinho por vídeos e jogos no celular? Pois não há motivo nenhum para comemorar a precocidade da criança de saber lidar com recursos tecnológicos.

O psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do grupo de dependência tecnológica do Hospital das Clínicas de São Paulo, disse ao blog “Ser Mãe É Padecer na Internet” que a exposição precoce das crianças à tecnologia vai criar uma geração de alienados. Em entrevista ao Maternar, afirmou que serão crianças incapazes de se relacionar com outras pessoas.

“Essas crianças, à medida que vão ficando cada vez mais próximas da tecnologia, vão se abstendo de se relacionar com o ambiente. Essa incapacidade de se relacionar com outros está ceifando importantes habilidades sociais”, afirma Nabuco. “É na infância que a gente começa a aprender o que se chama popularmente de inteligência emocional, que é a capacidade de empatizar, se colocar no lugar do outro. A criança que está ligada à tecnologia não tem isso.”

Exemplo dessa inabilidade social pode ser conferido em festinhas infantis. Enquanto um grupo de crianças se diverte brincado com os colegas, outro está entretido com o celular.

“A criança acaba entendendo que todo tipo de distração vem através da tecnologia. Mais que isso, ela tem controle total, pois esse recurso não frustra a criança. Isso faz com que os jovens se voltem para a tecnologia e deixem de conviver com os outros”, diz Nabuco.

Segundo o psicólogo, esse contato precoce e prolongado com a tecnologia traz impactos negativos para o aprendizado. “Quando um jovem fica muito tempo exposto à tecnologia ele vai perdendo a capacidade de fazer raciocínios de maior profundidade. “

Quando uma criança está assistindo a uma aula e desvia a atenção para ler a mensagem que chegou pelo celular ocorre uma “alternância de operações mentais”, que cria “um processo impeditivo de novas associações profundas.” “Eu deixo de prestar atenção no que você está falando. Estou escutando, mas não estou processando. Essa história de multitarefa é a maior falácia que existe”, diz o psicólogo do HC.

Para ele, os jovens dessa geração digital serão a grande geração perdida.  “Eles não darão conta de transportar informação das gerações anteriores para as futuras, muito embora eles estejam hoje bebendo da fonte da sabedoria. […] A gente tem visto hoje uma imensa dificuldade de os jovens universitários de ler e compreender textos.”

O problema, segundo ele, é que a dependência da tecnologia está começando cada vez mais cedo. Nabuco atendeu o caso de uma criança que só saía da cama, comia e se deitava se estivesse com o celular na mão.

“Aí a mãe me disse que o pior acontecia quando eles saíam para passear no shopping, pois a criança largava das mãos dos pais e corria para o colo das vendedoras para ter acesso aos computadores das lojas. Que idade tinha essa criança: Apenas 2 anos e quatro meses.”

E quando os pais devem introduzir a tecnologia no universo dos filhos. Nabuco afirma: “Nunca antes dos 2 ou 3 anos”.

Isso, segundo ele, porque a criança não está desenvolvida o suficientemente antes dessa idade para receber os estímulos provocados pela interação com o celular, por exemplo.

“Por que móbiles, legos e quebra-cabeças fazem tanto sucesso com a criançada? Porque estão de acordo com seu processo maturacional. Ela está amadurecendo toda essa parte cerebral. Vai começar a corrigir a coordenação motora fina. À medida que coloco um computador ou tablet, é uma enxurrada de coisas que muito pouco dialogam com suas capacidades cerebrais. Aspectos que precisariam ser desenvolvidos pelas brincadeiras mais básicas não o são”, diz Nabuco.

E não basta controlar ou impedir o acesso da criança à tecnologia. Cabe aos pais também servir de exemplo. O adulto que não desgruda do celular em casa também deixa de se relacionar com o filho e sinaliza como é legal gastar o tempo com as redes sociais ou internet.

“Cabe aos pais se informar cada vez que vão dar um tipo de acesso à tecnologia à criança. Procurar entender de onde vem aquilo, quais são os riscos. Mas é um grande paradoxo, pois para fazerem isso eles vão se deparar com a informação de que são modelos ativos para a criança. Eles estão dispostos a abrir mão do uso para servir de base?”, questiona Nabuco.

A segunda coisa que os pais devem fazer é parar de glamurizar o contato precoce da criança com a tecnologia. “Há uma necessidade dos pais de dar tecnologia para os filhos como forma de mostrar como eles são desenvolvidos e espertos. Isso acaba criando um convívio muito precoce e essa exposição se torna rapidamente um vício”, afirma o psicólogo do HC.

Há uma corrente de estudiosos do tema que entendem que o contato das crianças com a tecnologia as torna mais inteligentes que as gerações anteriores. Mas Nabuco diz que os medidores usados para mostrar esse avanço, como quantidade de amigos nas redes sociais e acesso à informação, não se revertem em habilidades sociais e aprendizado.