Falta de investimento na primeira infância traz prejuízos para toda a vida, alerta estudo

Por FABIANA FUTEMA
Programas que promovem a visitação de famílias ajudam os pais a estimularem o desenvolvimento dos filhos (Fotolia)
Programas que promovem a visitação de famílias ajudam os pais a estimularem o desenvolvimento dos filhos (Fotolia)

Cerca de 249 milhões de crianças correm o risco de ter seu desenvolvimento prejudicado devido à extrema pobreza e a atrasos de crescimento. Esse total corresponde a 43% das crianças menores de 5 anos dos países com baixa e média renda, segundo nova série da revista científica “The Lancet”.

O estudo “Avanços no Desenvolvimento Infantil: da Ciência a Programas em Larga Escala” foi apresentado nesta quarta-feira (9) no escritório da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), em Brasília.

O trabalho chama a atenção para a necessidade de investir em programas voltados para desenvolvimento infantil, principalmente aqueles que atendem a primeiríssima infância _ fase que vai da gestação até o 3º ano de vida.

E por que investir especificamente na primeiríssima infância? Nessa etapa, as crianças respondem às intervenções mais rapidamente do que em qualquer outra fase da vida. Os especialistas consideram que é um momento único para focar em ações voltadas ao desenvolvimento integral e integrado, que incluem: saúde, nutrição, afeto, ambiente seguro, proteção e oportunidades de aprendizagem.

Por outro lado, a falta de investimento nessa fase pode resultar em deficiências que resultarão em atrasos no desenvolvimento ao longo da vida.

Esses atrasos podem implicar, inclusive, em desigualdades de renda no futuro. É o que o reitor-adjunto da Universidade de Stanford, Gary Darmstadat, chamou de custo pessoal da inação em perda de renda.

“As crianças que não passam por programas de cuidados perdem 26,6% da renda média quando adultos”, disse ele durante o 6º Simpósio Internacional do Desenvolvimento da Primeira Infância, que aconteceu nesta semana no Recife.

De acordo com a série do “The Lancet”, o custo do investimento nas ações para desenvolvimento da primeira infância pode custar menos de US$ 0,50 por criança ao ano se forem combinadas programas já existentes, como serviços de saúde.

Não são apenas os indivíduos que perdem com a inação em programas para a primeira infância. Para os países, a perda pode chegar a até duas vezes seu investimento do PIB em saúde e educação.

“A ciência mostra que biologia é sinônimo de destino. As experiências das crianças nos primeiros dias e anos de vida modelam e definem seu futuro”, defende Anthony Lake, diretor-executivo do Unicef.

Não são apenas as crianças que precisam de incentivos. Especialistas defendem que a importância dos pais no desenvolvimento da criança por meio de estímulos, como brincadeira, afeto e leitura.

No Peru, por exemplo, o programa Cuna Más promove a visitação regular de famílias das zonas rurais por agentes capacitados da própria comunidade. Nessas visitas, os pais recebem orientações sobre cuidados, alimentação e estímulo das crianças.

Além da redução da mortalidade infantil, o programa promoveu outras mudanças na relação parental, como diminuição do castigo físico.

O ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, Osmar Terra, disse que as crianças atendidas pelo Bolsa Família receberão visitações de agentes capacitados nos seus seus primeiros dias de vida. Nessas visitas, as famílias serão instruídas sobre cuidados e estímulos para o desenvolvimento da criança.

A jornalista viajou ao Recife a convite da FMCSV (Fundação Maria Cecília Souto Vidigal)

(Foto: Fabiano Alves/Divulgação)
Gary Darmstadat fala sobre custo da inação no desenvolvimento da infância (Foto: Fabiano Alves/Divulgação)