Projeto aumenta parto normal em hospitais e reduz intervenções médicas e internações

Por FABIANA FUTEMA
Mulher usa banheira durante parto em hospital público (Foto: Divulgação)
Mulher usa banheira durante parto em hospital público (Foto: Divulgação)

A taxa de parto normal aumentou 76%, em média, nos 26 hospitais do grupo piloto do projeto Parto Adequado, iniciativa da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein e o IHI (Institute for Healthcare Improvement). Em 18 meses, a taxa subiu de 21% em 2014 para 37% em 2016.

Cerca de dez mil cesáreas desnecessárias _sem indicação médica_ foram evitadas neste período, segundo projeções da ANS.

A cesárea a pedido _aquela realizada pela vontade da paciente_ caiu de 28% para 19%. Para reduzir o percentual, o programa deve focar em campanhas de esclarecimento para as mulheres em uma próxima etapa.

“Estamos atuando em cursos para gestantes e pretendemos, na segunda fase, montar conselhos de pacientes, porque é muito importante informar direito à mãe. Para que ela possa optar pelo melhor parto ela tem que ser orientada”, diz Rita Sanchez, líder clínica do projeto e coordenadora da maternidade do Hospital Israelita Albert Einstein.

Um dos grandes feitos do projeto foi mudar a prática obstétrica. Houve queda na realização de uma série de procedimentos que causam dor e incômodo às mulheres. A utilização de acesso venoso caiu de 90% para 50% nos hospitais participantes do programa.  A episiotomia (corte entre a vagina e o ânus) decresceu de 40% para 24% enquanto a manobra de Kristeller (empurrar a barriga) retrocedeu de 12% para 4,8%.

O uso da ocitocina também regrediu, passando de 40% para 31%. Por outro lado, a utilização de métodos não-farmacológicos para alívio da dor _como massagem e acupuntura_ subiu de 50% para 73%.

“Medidas simples, como ter acompanhante, não pegar veia, não fazer episiotomia, são muito importantes para conseguir um parto fisiológico. Mais importante que ampliar a taxa de parto vaginal é essa mudança na prática obstétrica, levando em consideração o que as mães trazem para gente e as evidências científicas”, afirma Rita.

Segundo ela, as reivindicações pelas mudanças na prática obstétrica começaram  há dez anos, com o movimento de combate à violência obstétrica.

“Tudo isso partiu das próprias mães, que não queriam cesáreas desnecessárias nem parto normal repleto de intervenções desnecessárias”, afirma.

Outro benefício do programa foi reduzir a taxa de internação em UTI neonatal. Pelas projeções da ANS, 400 internações foram evitadas em 18 meses. A taxa de internação em UTI neonatal caiu de 86 internações por mil nascidos vivos para 69 internações por mil nascidos vivos.

O programa mostrou que ampliar a realização da taxa de parto normal não aumentou complicações, como morte materna, sequela e asfixia fetal, entre outros eventos adversos.

Em três instituições houve redução desse tipo de complicação: de 73 eventos adversos por 1000 nascidos vivos para 31 eventos adversos por 1000 nascidos vivos, uma redução de 57%.

O programa agora será ampliado para 150 maternidades, que serão capacitadas para ampliar o percentual de partos vaginais ao longo de dois anos.

Apesar de números tão significativos, o Parto Adequado ainda é uma gota no oceano da saúde suplementar. O percentual de cesáreas se mantém em patamares elevadíssimos: caiu de 85,6% para 84,4% de 2014 para 2015 na rede particular.

Esse cenário deve começar a mudar ao fim da segunda etapa do projeto, quando a meta é estender o programa para todo o sistema.

“O número ainda é muito alto. A gente espera que com esses 150 dê para começar uma inflexão do que o sistema tem hoje, pois vamos ter um número muito mais representativo de hospitais. Aí sim vamos conseguir ver o número nacional cair”, afirma Martha Oliveira, diretora de Desenvolvimento Setorial da ANS. “A gente acredita que a segunda etapa vai trazer outra representatividade. Vamos levar dois anos nessa fase, expandindo então para todo o Brasil. O objetivo da terceira fase é atingir todas as maternidades da saúde suplementar.”

Segundo ela, o fortalecimento e expansão do programa também traz confiança para a mulher na hora de decidir pelo modelo de parto. Com o tempo as mulheres também vão ganhar confiança no modelo e no tipo de parto, vamos desconstruir mitos que temos hoje. . A gente sabe que é possível e que deu excelentes resultados.”