Exposição da criança à tecnologia deve ser orientada e supervisionada pelos pais

Por FABIANA FUTEMA
Celular é ferramenta mais utilizada por crianças e jovens para usar internet (Fotolia)
Celular é ferramenta mais utilizada por crianças e jovens para usar internet (Fotolia)

Muito se fala sobre os riscos da exposição precoce da criança à tecnologia. A Academia Americana de Pediatria revisou recentemente sua recomendação sobre o tema, reduzindo de 24 para 18 meses a idade em que a criança não deve ter nenhum contato com dispositivos eletrônicos.

Mas os pais sabem o quanto é difícil evitar essa exposição. Muitos bebês são introduzidos ao universo musical através dos clipes da Galinha Pintadinha. Começam assistindo em casa. Mas logo os pais descobrem o efeito calmante da Galinha e recorrem a ela, através do celular ou tablet, principalmente em locais em que gostariam que a criança ficasse quieta, como salas de espera e restaurantes.

Para Glaucia Miyazaki, diretora de produtos/learning da FS (desenvolvedora de aplicativos para crianças de 6 a 11 anos), a introdução da criança à tecnologia tem de ser “feita sempre de forma orientada, supervisionada e natural”.

“Deixe a criança mostrar curiosidade e se interessar pelo equipamento, e, a partir daí, escolha qual conteúdo será apresentado. Esteja próximo para conversar, ensinar, comentar, interagir e brincar junto”, diz a especialista. “Quando a criança vai crescendo, a tecnologia precisa ser introduzida como mais um elemento, sem tomar lugar dos brinquedos e das relações pessoais.”

E o que ela diz sobre a idade mínima para esse contato começar? “Não existe uma regra para isto, é preciso ter bom senso. Bebês pequenos ainda estão desenvolvendo a capacidade de sentar, a coordenação motora para segurar, além da própria visão. Não faz muito sentido dar um tablete. Uma música, brinquedos ou móbiles são os estímulos mais indicados.”

Mas Glaucia afirma que a tecnologia faz parte da nossa vida e a criança uma hora terá de ser apresentada a ela. “É necessário inserir a criança neste contexto, permitindo o acesso às possibilidades geradas. Existem diversos aplicativos cuidadosamente pensados e criados para estimular e desenvolver algumas habilidades das crianças conforme sua idade.”

Glaucia diz que o contato com a tecnologia pode ajudar no desenvolvimento da criança de diversas formas.

“Os aplicativos podem contribuir para o exercício do raciocínio e da concentração, estimulando a análise e a observação para resolução de problemas. Podem estimular a criatividade e apresentar conceitos desde os mais estruturais, como os números, as operações, as letras, as palavras, as cores, as formas, até os mais sociais, como cuidado com meio ambiente. Alguns atuam na coordenação motora, outros têm cunho mais pedagógico”, afirma.

Segundo ela, se a tecnologia for introduzida de forma adequada, torna-se natural para a criança, estimulando sua curiosidade e permitindo a interação, além de fornecer possibilidades de conhecimento.

“Fazer um tour virtual num museu ou interagir com realidade aumentada em alguma área do aplicativo são exemplos de como tornar o processo de descoberta e aprendizado mais interessante. É o aprender brincando.”

EXEMPLO DEVE VIR DOS PAIS

Mas vale lembrar sempre que os pais devem supervisionar o conteúdo a que a criança tem acesso, além de servir de exemplo para ela.

“De nada adianta questionar a criança que deixa de fazer algo porque está no computador se os pais não deixam o celular de lado nem na hora da refeição”, afirma Glaucia.

Segundo ela, “a educação digital é um item muito importante que não deve ser delegado às escolas ou qualquer outra entidade”.

“São os pais que precisam dar os limites e acompanhar esta interação e este aprendizado. As regras estabelecidas devem ser cumpridas. Os pais precisam estar atentos, devem ver os aplicativos antes para garantir que são adequados ao que esperam”, diz.

Para evitar que a criança se meta em situações perigosas no mundo virtual, ela lembra que existem soluções tecnológicas para monitorar o que é feito nos tablets, computadores e celulares, além da possibilidade de determinar tempo de acesso e conteúdo permitido.

“Existe ainda a parte de configurações dos aparelhos que também permitem limitar o tipo de acesso e ações que podem ser realizadas. Tudo isto ajuda a determinar os limites e também interagir, atuando na orientação e na educação digital das crianças”, afirma a especialista.

TEMPO PARA OUTRAS ATIVIDADES

Glaucia destaca que o uso da tecnologia não deve invadir o tempo de outras atividades da criança, como brincar, comer, dormir, fazer exercícios, tomar banho, conversar e interagir.

“Deve ser mais um elemento nesta rotina de vida. E também não deve ser entendida como uma obrigação. Quando a tecnologia é introduzida de forma orientada e supervisionada, é natural impor limites _de tempo e períodos permitidos, pois assim como as demais atividades, ela tem seu lugar no dia-a-dia.”

“Brincar ao ar livre é tão importante quanto ficar um tempo junto em casa desenhando. Pais e filhos jogarem juntos é tão importante quanto simplesmente conversarem na mesa de jantar. A questão é que estas pequenas interações estão se perdendo, é isto que precisamos buscar”, diz.