Preste atenção no que seu filho assiste no YouTube, pode ser propaganda disfarçada

Por FABIANA FUTEMA
Ana Paula e a folha Alice (Arquivo Pessoal)
Ana Paula e a folha Alice (Arquivo Pessoal)

A hora do dia em que você mais tem sossego é quando seu filho está no YouTube? É melhor prestar mais atenção e acompanhar de perto _preferencialmente junto _ o conteúdo do programa que ele está assistindo.

Uma das modalidades de vídeo que mais cresce em audiência no YouTube são aqueles que mostram crianças e adultos desempacotando brinquedos, segundo pesquisa do ESPM Media Lab. São os chamados de unboxing vídeo.

Só que agora os vídeos não mostram apenas os brinquedos sendo desempacotados. Algumas empresas se especializaram em criar historinhas e usam os brinquedos como personagens de novelinhas. O problema é que muitos desses enredos não têm pé nem cabeça e não há um controle sobre a faixa etária a que se dirigem.

Isso significa que a criança pode começar assistindo a um vídeo do seu programa preferido, como a Peppa Pig e cair desavisadamente em uma dessas novelinhas que possuem narração tosca e conteúdo de qualidade duvidosa.

Para o Instituto Alana, há outro risco na veiculação desse tipo de material na internet. É a propagada velada dirigida para o público infantil. Resolução do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) considera abusiva toda publicidade direcionada às crianças. A publicidade de produtos infantis pode continuar existindo, mas tem de ser dirigida aos adultos.

Uma das formas de fazer esse tipo de propaganda disfarçada, segundo o Alana, é justamente por meio dos youtubers mirins, que postam vídeos de produtos e serviços de empresas. Alguns chegam a receber para isso _os chamados publiposts.

“As empresas utilizam canais de youtubers mirins para falar com outras crianças. Essa criança espectadora confia e acredita nessa criança anunciante. Os youtubers são vistas como amigos, inspiram outras crianças, que inclusive querem depois ser youtubers”, diz Ekaterine Karageorgiadis, advogada do Instituto Alana. “Elas passam a desejar o produto que o youtuber publicou.”

Na opinião da advogada, esse tipo de publicidade, mesmo que envolva o pagamento de determinada quantia para o youtuber, é mais barato que anunciar na TV. “Não existe toda a produção utilizada em um filme de 30 segundos na TV. E na internet a criança assiste ao vídeo várias vezes, em looping.”

Karageorgiadis afirma que independentemente do meio, existem leis protegendo os direitos das crianças. A Constituição, Código de Defesa do Consumidor e ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) consideram a criança vulnerável , sem capacidade de julgamento.

“Esse tipo de publicidade é irregular. No nosso entendimento, a legislação que protege infância vale para qualquer espaço, qualquer meio de comunicação. A internet não é uma terra sem lei. A legislação protege o interesse da criança” diz a advogada.

Uma sondagem  sobre o tema em grupo de mães no Facebook indicou que a maioria das crianças que assiste a esse tipo de vídeo acaba pedindo que os pais comprem o brinquedo depois. Várias mães relataram que seus filhos acabam imitando os youtubers e pedem para serem filmadas brincando.

A gerente de produto Ana Paula Ferreira, 34, não permite que a filha Alice, de 6 anos, assista a esses vídeos de crianças ou adultos com brinquedos no YouTube. Ela se assustou com o conteúdo desses vídeos e barrou a programação.

“Todo mundo posta o que quer no YouTube e acho muito difícil controlar. Outro dia ela estava assistindo um episódio de ‘Barbie live in the dream house” e o episódio seguinte era de adultos brincando com a Barbie, Ken. Era uma novelinha sobre gravidez, ok, até pode ser educativo para uma criança de 12 anos, mas não para uma de 6, para quem ainda não expliquei de onde vieram os bebês”, disse ela.

Ela conta que também assistiu a um episódio com bonecas da animação Frozen e teve uma briga. “A coitada da [boneca] Ana apanhou. Aqui, para usar YouTube, somente filmes ou desenhos. Mas eu coloco e encerro também. Vídeo de youtuber, só alguns e quando queremos fabricar algum artesanato ou geleca.”

A gerente afirma que prefere investir o tempo da filha em “brincadeira com as amigas, seja de boneca ou pular corda”. “Na minha opinião, as crianças de hoje estão com a inteligência emocional muito prejudicada, pois a interação social é muito fraca.”

A SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) diz que os pais precisam estar atentos à classificação indicativa para games, filmes e vídeos “de acordo com a idade e compreensão de seus filhos”.

“Crianças menores de 6 anos precisam ser mais protegidas da violência virtual, pois não conseguem separar a fantasia da realidade”, afirma a entidade.

SUPEREXPOSIÇÃO E TRABALHO INFANTIL

Outra questão levantada pela advogada é a superexposição da imagem desses youtubers mirins, além do trabalho infantil.

“Não há um impedimento para as crianças aparecerem em vídeo. Até porque essa geração está nas redes sociais, já nasceu nativa digital. Mas é preciso discutir a superexposição dessas crianças, a mercantilização da infância para fins comerciais”, diz.

Para coibir abusos  e a veiculação de publicidade para o público infantil, o Alana fez duas denúncias, uma ao Ministério Público Federal de São Paulo e outra ao Ministério Público Federal do Rio. Algumas empresas responderam ao questionamento, mas a utilização de youtubers para divulgar produtos, como brinquedos, continua firme e forte na internet.

CONTROLE

O YouTube Kids anunciou no mês passado novos mecanismos de controle do conteúdo consumido pelas crianças. Se o pai não quiser que os filhos a assistam vídeos que ensinam a fazer melecas, por exemplo, basta bloquear os vídeos e canais. É só excluí-los fazendo login no aplicativo. Para fazer o login, o app pedirá sua conta de e-mail.

Com isso, todos os vídeos e canais bloqueados serão os mesmos em todos os dispositivos que seus filhos usam. Se mais tarde você quiser liberar o conteúdo, basta desbloquear.

OUTRO LADO

Existem vídeos de youtubers e de empresas que mostram adultos brincando com brinquedos de praticamente todas as marcas. É só fazer uma busca pelo nome do brinquedo e do fabricante.

O blog entrou em contato com a Estrela e Hasbro e enviou links de vídeos que utilizavam bonecos da Peppa e massinhas Play Doh.

Em nota, a Estrela informou que “é uma licenciada da personagem, não pode interferir em nada a não ser na produção de suas licenças”. A Hasbro não se manifestou.

A empresa responsável pelo licenciamento da Peppa no Brasil também não respondeu à reportagem.